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domingo, 4 de março de 2012

O OUTRO LADO DO ÓBVIO...



O que está acontecendo pai?
Que doideira fazer parte desse século. Tudo tem que ser tão ciberneticamente imediato, não há mais tempo para saborear preciosidades... Quase tudo se resume em rasgar o envelope, acrescentar 200ml de água, colocar no microondas e pronto. O espírito do imediatismo do século XXI tenta me fazer acreditar que viver pequenas coisas que não sejam majestosas, exuberantes, imprescindíveis, como olhar o passeio de uma folha voando nas costas do vento, é coisa para derrotados. Fico tonto com essa roda-gigante, dessa rotina míope e sufocante. As vezes olho pro céu, abro os braços e pergunto pra Deus: "O que está acontecendo Pai? Quem eu sou? Onde estou? Para onde vou?" Penso que somos tão absolutamente complexos, assim como, somos tão absurdamente óbvios de mais.

Pinky e Cérebro
Tinha um desenho animado que eu já burro velho gostava de assistir. Eram dois ratos de um laboratório, um se chamava Pinky e o outro Cérebro. No fim de cada história Pinky perguntava para o Cérebro: “O que vamos fazer amanhã Cérebro?” E ele sempre respondia o mesmo bordão: “A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky... Tentar conquistar o mundo!” Eu estou cansado de seguir esse “script”, de tentar todos os dias “dominar” o mundo... Dessa tarefa perpétua de ser espetaculoso. Dessa maldita competição pelo melhor campo de caça. 
Lembro da minha época de vestibular, em 1977 eu estudava no GPI da Tijuca. Um dia em meio aquele stress de ter que aprender tudo e passar na faculdade, uma menina bonitinha e gostosinha, que sentava na minha frente, disse em alto brado numa aula de química sobre moléculas e outros periféricos do assunto: “Eu não acredito em nada disso!!! Molécula? Que fica vibrando? Que se aglutina a outras moléculas para formar coisas...? Eu estudo isso para passar no vestibular, mas se eu não vejo, eu não acredito!!! Pooorra!!! Foi aquele reboliço na sala... e o professor com aquela "cara de bunda". É como dizem... Um ano de cursinho pré-vestibular, 13 mil reais, passagens de ida e volta para o cursinho, 1.200 reais, livros e apostilas usados durante o ano, 3.000 reais, ver o professor de química ficar com "cara de bunda", isso não tem preço... Por acaso eu acredito em moléculas, mas pensando bem eu nunca parei para pensar sobre isso. Não tive sequer uma duvidazinha quando me disseram que moléculas existiam. Aceitei de cara! Mas essa menina, mesmo parecendo uma idiota caipira sem fé na ciência, questionou o óbvio estabelecido, o “combo” nosso socialmente aceito de cada dia. Não deixei de sentir uma pontada de inveja da sua coragem de se posicionar, de se declarar, da sua atitude de duvidar sobre que os americanos chamam de “established”. O primeiro passo para mais um passo é questionar. Eu acredito no que não vejo! Eu acredito no vento, eu acredito em Deus, eu acredito em micróbios, eu acredito no amor... Vou te dizer no que mais acredito: acredito que é preciso ter um coração aberto para que os mistérios que não sabemos explicar, possam alcançar o nosso entendimento; pois o mistério é um quarto escuro que se desfaz quando a luz da compreenção revela o seu ambiente. Quero lembrar o papelão do apóstolo Thomé como exemplo: (João 20:24-29). A promessa de Jesus em ressucitar ao terceiro dia havia se cumprido. Os outros onze seguidores restantes que restaram (Judas havia se matado), estavam aterrorizados de sofrerem o mesmo fim de Jesus. Por ordem de Caifás, os soldados do Templo os caçavam por toda parte. Eram considerados subversivos e as autoridades judaicas, queriam acabar com esse levante de judeus insubordinados a lei de Moisés. Quando Jesus apareceu pela primeira vez depois de sua ressureição, Tomé não estava presente. Quando Tomé foi ao encontro de seus irmãos, esses estavam eufóricos, gritavam e gesticulavam nervosamente com suas mãos: "Tomé, ele está vivo!!! Nós o vimos, ele conversou com a gente..." Thomé era aquela menina na aula de química do GPI e disse para o constrangimento de todos: "Se eu não vê-lo na minha frente com as feridas abertas pelos pregos em suas mãos, se eu não meter meus dedos na ferida da lança em suas costelas, eu não vou crer nisso!" Uma semana se passou e todos estavam reunidos novamente, ceavam, oravam e buscavam descidir o que fariam de suas vidas, muitos ali tinham famílias, esposas, filhos, mas não podiam retornar para suas casa... Uma voz os dispertou de suas apreensões, Jesus surgiu entre eles apesar das portas e janelas estarem fechadas. Eles o cercaram novamente com grande espanto e alegria. Jesus disse: "Que a paz esteja com vocês!" Virou-se para Thomé e disse: "Coloque seus dedos nas minhas feridas, olha para minhas mãos... Pega sua mão e passa na minha ferida da lança; não duvide mais de que estou vivo, mas seja crente!" Tomé estava estarrecido, constrangido, entregue... E disse em alto brado: "Meu senhor, meu Deus!!!" Jesus respondeu: "Por que me vê, acredita agora? Bem-aventurado os que não me virão e acreditarão em mim..."
Esse mundo não vai minimizar ou compactar a fé que tenho. As vezes minha fé parece uma batata quente que jogo de uma mão para outra, mas nunca a deixei cair...
Quero te contar o que aconteceu comigo no início deste ano.
Não me lembro em qual manhã de domingo foi, sei que estava dormindo e fui acordado pelo telefone, arrancado dos meus sonhos para as fronhas do meu travesseiro. Atendi: “Alou...” Uma voz feminina respondeu: “Alou, é o Sr. Ricardo?” Bocejando respondi... “É sim, quem é?” “É a enfermeira Rosely do asilo da dna. Malvina. Ela não está bem, o senhor poderia vir até aqui o mais rápido possível?” O que eu tinha nos intestinos se liquidificou! Perguntei: “Mas o que houve?” “dna Malvina teve uma convulsão hoje cedo, bateu com a cabeça e se encontra sedada... É necessário a presença de um familiar para levá-la a um hospital para fazerem uma avaliação.” “Claro, eu estou indo para aí!” Rosely encerra nossa conversa falando pausadamente: “...mas não demora...” Senti um calafrio como a descida brusca de um elevador. Pensei na hora: “Minha mãe morreu!” Trailers de filmes começaram a passar diante dos meus olhos. Cenas com minha mãe, brigas, carinhos, meus desrespeitos, minhas saudades... Lembrei quando meu pai morreu, minha mãe foi uma rocha e dessa rocha tirei a minha força. Minha irmã ficou inoperante e perguntava vez por outro para o constrangimento de todos: “Porque ele está deitado aí? Pai, levanta pai...” Meu irmão ficou inoperante chorando pelos cantos, moído, órfão, tão distante quanto pode ir atrás do nosso pai. E o operacional? Quem encomendaria o caixão? Quem combinaria tudo com o padre? Quem veria à capela? Quem lhe colocaria o terno? Quem preencheria os cheques? Meu pai atravessou o rio e deixou seu corpo para ser enterrado. Fomos nós dois, eu e minha mãe, que fizemos tudo. Eu só não quis vesti-lo, mesmo morto, eu não conseguia tocá-lo... Então, diante da ideia de enterrá-la, me senti totalmente sozinho... Respirei fundo, já não havia tanta pressa, eu estava certo sobre sua morte. Levantei-me, vesti-me, joguei água na cara, tomei um somaliun 3mg, liguei para meus irmãos, liguei para a companhia telefônica e inseri créditos no celular, avisei meus filhos que ficassem em casa e atentos ao telefone, subi na lambreta e fui para a Tijuca. Ao chegar fui ao seu quarto e graças a Deus ela não estava morta, apenas sedada. Em seguida chegou meu irmão branco como uma vela nova. Resolvemos levá-la para a UPP da Tijuca e vimos depois que foi a melhor decisão. Meu irmão foi buscar o carro e a enfermeira a cadeira de rodas. Um grande silêncio foi me envolvendo, a luz se apagou, a tela foi recebendo novas imagens e assisti a um filme completo em 3D de 30 segundos. Um dia a muito do passado, eu era adolescente, e estava deitado na minha cama. Eu havia discutido na noite anterior com minha mãe por um daqueles motivos absolutamente babaca e como quase todo o adolescente, acreditava que meus pais eram idiotas e que eu sabia demais!!! Na manhã seguinte minha mãe parou na porta do meu quarto e chamou pelo meu nome. Eu estava acordado e fingi estar dormindo, fiquei imóvel. Ela então entrou no meu quarto e caminhou lentamente em minha direção, sentou-se na beirada da cama, se inclinou sobre meu corpo e me abraçou por longos minutos... Quantas vezes ela deve ter feito isso quando eu realmente estava dormindo? Naquela época eu não sabia chorar, mas deu muita vontade. Ela nunca soube que eu estava acordado e eu nunca contei isso para ninguém até agora. 
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  Qual é o outro lado do óbvio?



MEU CAÇULA E EU
Eu vivo beijando e abraçando meus filhos para o eterno constrangimento deles... Sinto como se estivesse também beijando e abraçando meus pais... Como sou idiota!!! Eu e meus pais sempre tivemos muros altos entre nós. Era a minha última chance de dizer para minha mãe que eu a amava profundamente. Pensei: “Ela vai morrer hoje!!” Eu devia isso para mim e devia isso a ela... Olhei para os lados com vergonha de alguém me ouvir... Olhei seu corpo seco e encolhido e disse me inclinando levemente: “Mãe... Mãe eu te amo!!! Então vindo do seu corpo ouvi claramente sua voz me responder: “Eu também amo você...” Um raio gelado me descosturou a alma. Meus olhos se esbugalharam e eu só consegui dizer: “Mãe!?...” Fui tomado por uma arrebatadora emoção, meus dentes trincaram e chorei. Meus ombros balançavam e eu só conseguia dizer: “Obrigado meu Deus!... Obrigado meu Deus!...” 
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Sei que o óbvio nos faz concluir que eu estava sob grande stress emocional e ouvi o que queria ter ouvido. Sei que o óbvio dirá que produzi em minha mente uma frase onde eu pudesse me refugiar e refrigerar a minha angústia... 
.Sei... 
.Mas e o outro lado do óbvio? Acredito que Deus se compadeceu do meu arrependimento, me deu outra chance. Fez coisas que só Deus pode fazer, me deixou ouvir o que o coração da minha mãe tinha para me dizer... Aquela que hoje me vê e não me enxerga, pergunta quem eu sou, não se lembra de ter me alimentado em seu ventre, me reconheceu, me ouviu e me respondeu. Bem... Ficamos horas na UPP, minha mãe foi medicada, as tropas inimigas recuaram e bons anjos montaram guarda em torno de sua cama. Ela se recuperou e a levamos de volta para o asilo onde se encontra até hoje. Posso não saber como são seus pensamentos com tão avançado estágio do Mal de Alzheimer, como ela se vê, que tipo de consciência lhe resta; mas eu sei que sentimento ela tem por mim guardado no fundo do seu coração, porque ela me disse. Ela ainda se encontra presa em seu corpo desgastado aguardando a liberação de Deus para cruzar o mesmo rio e encontrar o seu amor na outra margem, seus pais, seus irmãos... Esse será meu único consolo. 
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Foi isso que aconteceu comigo no início deste ano, amigo, vou para por aqui, chorar dá muito sono... 
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Aprendi levando muita porrada que mesmo estando sozinho, sem munição, ferido e cercado pelos índios, a trombeta da 7ª cavalaria vai soar e Deus virá para me resgatar das minhas aflições. 
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Por isso eu sou cristão. 
.É um plano de vida que nunca falha.

Ricardo Cacilias
Dedicado a menina da aula de química

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

MEU CARNAVAL 2012


Fiquei seco de palavras. Fui ao cinema, li um livro, li revistas, naveguei horas pelo mar da web e a sede não morria. Não tinha mais nada para contar, ou pior, não tinha mais vontade de escrever... Depois da chuvarada de reclamações de uma ala da família pelo tom que eu infringia aos meus textos, fiquei meio sem norte. É “curioso” ter que lembrar, mas eu tenho uma alma, eu tenho sentimentos, eu sou uma pessoa e se me morderem dói e sai sangue! Achei que as ondas iriam se aquietar ao amanhecer, mas continuam agressivas mesmo tendo a chuva parado; nunca vi onda agarrar as pernas para o fundo, até onde sei quem faz isso é a correnteza... Puta que o pariu, arranjei ondas malucas como parceiras do meu dia-a-dia!! Conheço uma pessoa que foi muito próxima a mim que me disse uma vez: “Se você tivesse demorado mais 5 minutos para nascer teria nascido gay!” O motivo dessa análise de fundo psico-hormonal sobre a minha pessoa é porque eu não gosto de carnaval (quem já viu um, salvo raríssimas exceções, já viu todos). Eu não gosto do povo do carnaval, de suas urinadas na rua, de suas latas de cerveja no chão “abrilhantando” a festa, desse sentimento que esse povo tem de que é dono do mundo e habilitado a fazer o que quer, onde quer e foda-se você!!! Eu não gosto do repetitivo som do samba-enredo onde se trocam apenas as letras e muitas vezes nem isso. Eu não gosto de ter meus acessos fechados porque as “trocentas” bandas vão passar as 14, as 15, as 16, às 18hs... Eu não gosto de ver a praia virar uma latrina e dormitório. Enfim. É isso aí! O outro motivo que levou essa pessoa a concluir sobre a minha masculinidade, caso se eu tivesse demorado a nascer, é porque eu não gosto de futebol... Eu fiz outros esportes na minha vida: natação por muitos anos, pratiquei judô e até saltos ornamentais (eu vivia com um sorriso congelado na cara de tanta carada na água até acertar um salto... Ainda bem que eu não usava dentadura...). Mesa redonda, então, com aqueles caras falando de uma seriedade pungente como se estivessem debatendo a paz no mundo ou sobre a cura do câncer, me dá sono; ao menos serve para alguma coisa. Veja, não estou falando da copa do mundo onde meu sentimento nacionalista cresce mil por cento, adoro copa do mundo, mas joguinho de fim de semana com alguns dos jogadores ganhando quase 1 milhão por mês somados salários, benefícios, propaganda e suas imagens em produtos esportivos e perde um pênalti... Não é a minha praia! Gostaria que ficasse registrado que a comunidade gay adora carnaval e futebol... Que merda de análise psico-hormonal foi essa?? Nossa! Viajei e perdi o foco do meu texto... Apesar de não gostar de carnaval aceitei ontem o convite do meu irmão em visitar o bairro onde moramos por 8 anos. Ele fez uma propaganda danada de um cara que monta uma barraca na frente da casa dele e faz um churrasco maravilhoso. Fui! Eu não voltava a esse bairro há 36 anos. Fui em parte por curiosidade, em parte porque não tinha nada para fazer, em parte porque gosto da companhia do meu irmão e porque estava com fome. Finalmente eu estava sentado na área de refeição da Rua Tereza Cavalcanti comendo uma picanha com aquela gordurinha que gruda nas coronárias, absolutamente deliciosa. Agora que meu barco está à deriva e solitário no mar da vida, passei a valorizar bastante esses momentos família. Ontem à noite a temperatura estava agradabilíssima, tomei uma cerva muito muito gelada, comi picanha com farofa na companhia do meu irmão, da minha cunhada e do meu afilhado querido de 5 anos. Foi tudo muito light. Gostei imensamente. Quando estávamos nos encaminhando para o carro, talvez motivado por estarmos juntos no bairro em que moramos há 36 anos ele lembrou de uma história que fez esse meu carnaval valer à pena. Na casa ao lado da nossa morava o Fábio, um garoto legal que brincava com a gente, hora estávamos na casa dele, hora ele estava na nossa. Ele tinha um pai durão, machão, antipáaaatico... Um dia, eu com 12 anos e meu irmão com 8 anos, fomos na casa do Fábio para jogar bola de gude e nisso o pai dele sai por detrás das sombras, aponta seu dedo colt 45 na minha direção e diz: “Você está muito velho para brincar com eles, é melhor você ir para sua casa...” Me senti horrível! Como eu poderia ser velho com 12 anos? Eu tenho 52 e não me sinto velho. Algumas das emoções que senti naquela hora não foram plenamente decifradas por mim, mas hoje posso classificá-las como: ofendido, humilhado, injustiçado e finalmente puto da vida... Enfim, recolhi minhas bolas de vidro no saquinho e fui para casa... Meu irmão continuou por lá e confesso que não achei nada de mais, o rejeitado fui eu, não ele! Essa foi à história que meu irmão lembrou e que estava meio embaçada por tanto pó acumulado sobre suas imagens, mas que ao ouvi-la lembrei perfeitamente. Então ele concluiu dizendo: “Eu achei um absurdo o que o pai do Fábio fez com você. Me senti muito mal. Nós éramos crianças. Eu devia ter me levantado e ido embora contigo, mas acabei ficando. Desculpa!!!” Desculpa??? Tomei um susto, o pássaro da emoção bicou meu peito. Confesso que nunca havia parado para pensar sobre isso, porque na verdade é um episódio bobo... Fábio hoje deve estar cheio de filhos preocupado com os namorados das filhas... O pai dele morreu de ataque cardíaco há muitos anos... Eu não jogo mais bola de gude e meu irmão está com 48 anos. Mas o que faz essa história ser tão especial para mim é que meu irmão com 8 anos foi solidário comigo e eu nunca soube disso. Continuamos andando em direção ao carro, agi como se nem tivesse ouvido direito sua história ou que não tivesse dado a devida importância. Roberto, por sua vez, ficou em silêncio. Talvez estivesse se sentindo bem por ter feito algo bom para si mesmo, talvez tenha desembrulhado de um jornal velho e amarelado uma história antiga e passado a limpo um texto escrito com garranchos, talvez o cosmo esperou o dia e a hora de um dia de carnaval para, de uma maneira simples e sincera, dar uma resposta aquele garoto de 12 anos que ainda vive neste meu corpo de 52. Agora escrevendo este texto choro de emoção. Essa sopa emocional envolve muitas lembranças, minha vida, meu pai morto, minha mãe com Alzheimer, meus dias, meus filhos, minha ilha deserta, minhas ondas... Todos nós temos nossos momentos triviais em que os anos vão acrescentando pinceladas de tinta grossa e de cores vivas; nem tanto pela importância do ocorrido, mas pelo laços emocionais que se fixam em nossas almas como ostras que se agarram nas rochas... Na maioria das vezes e na maturidade que o tempo nos agrega, essas lembranças e análises ficam na beira da garganta e ali montam moradia... Porque quase sempre não temos mais chance de esclarecer, de rever juntos, de pedir desculpas. As pessoas envolvidas ou morreram ou se foram ou não querem lembrar... Mas desta vez foi diferente, meu irmão me pediu desculpas depois de 40 anos. Fiquei quieto para não provocar meus olhos e manter meu coração apenas batendo. Irmão, tá desculpado! Obrigado pelo melhor carnaval da minha vida! Quando a gente acha que já chorou por tudo, a vida renova seu estoque de surpresas e tira da sua cartola novas emoções que nos alimentam...

Esquindo lele... esquindo lala...

Viva a vida!!!






























sábado, 14 de janeiro de 2012

BLACKOUT...


A história e os personagens descritos são ficção. As
locações e o apagão de 2009 são reais. Qualquer semelhança
com pessoais vivas ou mortas e mera coincidência.


Que o meu relato servir de alerta aos milhares de maridos que vivem nesta cidade e aos milhões de homens que vivem neste país... Meu nome é Bernardo Pedrosa, tenho 30 anos e sou engenheiro de telecomunicações. Moro na Rua Jorge Barbosa Moreira, na Vila Ema, em São José dos Campos, quase em frente à igreja dos Mórmons... Minha história começa na noite do dia 10 de novembro de 2009, as 22:15 quando explodiria o maior blackout registrado na história deste país, atingindo vários estados e o distrito federal por longas horas...
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Som de teclas batendo rapidamente...
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21:48: "Ai caraaaamba! Estou atrasado, a locadora vai fechar...".
Era para ser apenas mais uma noite quarta-feira. Eu escrevia nervosamente meu relatório para a diretoria financeira da empresa, tinha que enviá-lo naquela noite por e-mail e sair correndo para devolver o filme na locadora; ainda teria que comprar alguma coisa no mercado para o meu jantar e outras coisas de uma listinha que Bárbara deixou comigo. Minha mulher é médica e tinha ido a capital visitar seu Alexandre, meu sogro andou sentindo umas dores no peito e ela ficou preocupada com o pai. Ela havia prometido que estaria de volta no dia seguinte. Como fico enrolado sem a minha mulher em casa!!! Bárbara é meu porto seguro, minha aliada, minha amiga, minha doce mulher.
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22:01:  "Finalmente! E-mail para o financeiro, cópia para o aministrativo, acabou... Vou correndo na locadora, o mercado fica quase em frente...".
Saí estabanado catando chave do carro, caixa do CD "porra cadê o CD???... Hum, ainda esta dentro do equipamento!" Liguei o DVD, ejetei, coloquei o CD na caixa. Sai correndo. Abri a porta da sala, desliguei a luz, mas antes de bater a porta lembrei da lista da Bárbara "...mas onde ela colocou isso???" Corri pra cozinha e lá estava
BERNARDO e a Dra. BÁRBARA
grudado com um magnético na porta da geladeira, bem do lado da nossa foto de viajem a Bariloche em julho do ano passado... Ainda dei uma olhada no seu sorriso antes de sair igual a um ladrão... Moro no oitavo andar.
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.22:13: "Cadê a droga do elevador??..."  
Reparei que o elevador estava parado no sétimo andar... parado... parado... ainda parado...Enfiei a cara na escada e gritei... "Amigão... pode largar a porta do elevador???  Estou com a maior pressa!!!!"  Ainda deu para ouvir alguém dizer baixinho... "Iiiih tem algum nervosinho com pressa, já vou indo... tchau!!! Te ligo..." A porta fechou e o elevador subiu para o meu andar. Pensei... "Que saco!!!"

22:14:  Sem graça e com cara de “bunda” fui dizendo: "Oi boa noite, foi mal, mas é que estou cheio de pressa... A locadora fecha às dez e meia..." Foi quando olhei para ela, jovem, bonita, uns 25 anos, lábios rosa escuro, nariz perfeito, cabelos de anjo rebelde, cheiro de perfume gostoso...
SIMONE
Ela falou meio sem jeito o que lhe deu um ar mais gracioso ainda. "Não, não... Eu que peço desculpas... Eu estava errada em segurar a porta do elevador..." Ela disse essa frase com um lindo sorriso, nossa que mulher linda!!! Meus hormônios começaram a produzir enzimas tóxicas, fiquei estúpido e perguntei:  "Você vai para qual andar??" Ela cobriu os lábios com as pontas dos dedos e riu de mim. "Estou descendo como você..." "Ah! É verdade! Que idiota... é claro!" Apertei o térreo.


O AUTOR E O ATOR SELTON MELLO
80 andar: "Eu tenho que entregar esse filme na locadora..." "Que filme é esse?" "É o “Meu Nome Não é Johnny”, com o Selton Mello, achei muito legal..." "Eu vi no cinema, me amarrei..." 

70 andar: "Será que está chovendo?" (...ai que babaca, só um idiota pergunta isso para uma mulher!!!...) "Não sei, nem pensei nisso... Será???" 

60 andar: "Veio visitar alguém?" "A Lúcia Helena, ela é colega na Unifesp, vim bater papo..." "Legal..." De repente ouvimos um estalo e o elevador parou entre o 60 e o 50 andar... Tudo havia ficado no mais absoluto "breu" e num silêncio assustador. "O que aconteceu??" "Sei lá, acho que faltou luz..." Cheguei a ouvir vozes distantes... O mundo parecia ter evaporado... "Ai não estou gostando nada disso! Estou ficando nervosa, não suporto ficar presa... Grita ai, chama alguém!!" Eu me sentiria ridículo gritando “Moço, moço, socooorro... Estamos presas aqui!!!" Sabia que tinha faltado luz, que o zelador do prédio iria verificar se havia alguém nos elevadores... Mas disse para tranquiliza-la:  "Olha, estou com o meu celular, posso chamar alguém... Deixa eu sintonizar uma rádio..." Liguei na Joven Pan, estavam falando exatamente sobre a falta de luz: 
...e as autoridades municipais e estaduais estão em alerta geral! Repetindo. Um blackout atingiu várias regiões do País nesta noite de terça-feira. Por volta das 22h15 o fornecimento de energia elétrica foi interrompido em pelo menos quatro Estados - São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso, além do Distrito Federal. Há informações de que Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Paraná e Pernambuco também estariam sem luz. O porta voz do Ministério das Minas e Energia ainda não se manifestou, estima-se que o Ministro Edison Lobão irá convocar uma entrevista coletiva a qualquer momento. As autoridades não dão previsão do retorno a normalidade...” Parabéns eu havia conseguido piorar as coisas... Foi quando ela entrou em pânico... "Preciso sair daqui, estou com falta de ar. Abre essa meeerrda!!!" Como se eu pudesse fazer isso. Deu pra ver que a tensão estava aumentando, resolvi ridicularizar geral e gritei pro "moço": "Oi, estamos presos no elevador... Alguém me ouve??"  Ela me empurrou pro lado e deu o maior berro estridente que ouvi em toda a minha vida a meio metro do meu ouvido: "SOCOOOOORRO!!!!" "Calma garota, calma!!!... Escuta o que vou dizer, me dá a sua mão..." Gostei de segurar aqueles dedinhos finos e gelados. "...eu estou aqui com você. Esquece que estamos no elevador! Você não está vendo nada mesmo, poderíamos estar em qualquer lugar. Não estamos herméticamente fechados, está entrando ar. Respira com calma e bem devagar, sinta o ar entrando nos pulmões, veja, eu estou tranquilo. Vai dar tudo certo! Senta aqui no chão, vou sentar aqui do seu lado... Qual é o seu nome?" Ouvi uma fungadinha... "Meu nome é Simone." "Lindo nome, meu nome é Bernardo. Acho que vamos ter algum tempo para nos conhecermos melhor... Vai dar tudo certo! Me conta, o que você faz na Unifesp?" Já não havia mais pressa, não fazia mais diferença entregar o CD antes de fechar a locadora, os sorvetes de todo mundo iriam derreter nos congeladores, os médicos e enfermeiras de centenas de hospitais estariam naquela hora histéricos nas UTI's com seus aparelhos desligados, os sinais de trânsitos estariam sem cor, milhares de pessoas como nós presas nos elevadores, pais procurando filhos e todos em pânico num mundo sem luz... Ficamos conversando durante muito tempo, ela falava, eu falava... Com o tempo eu até podia sentir que ela estava sorrindo das bobagens que eu falava... "Ai, estou ficando apertada!!" Só me faltava essa... Foi eu pensar nisso e a luz voltou, levei um tapa da luz nos olhos. Tive que cobri-los com as mãos e Simone fez o mesmo... Tínhamos ficado mais de duas horas e meia sentados no chão do elevador... "Vamos lá em casa... Você vai ao banheiro, lava o rosto, sei lá... come alguma coisa e eu te levo em casa depois... Tudo bem?" Ela disse: "Tá bom, mas vou de escada..." E saiu porta a fora do elevador e eu segui atrás.... Chegando em casa ela foi direto apara o banheiro e sabe-se lá por qual processo químico-bronco-humanóide, os fios da minha cabeça começaram a se embolar. Eu ainda estava tentando organizar meus pensamentos, encontrar meu equilíbrio quando ouvi a descarga no banheiro... Minhas pupilas dilataram. Fiquei excitado... Simone saiu do banheiro ajeitando a saia e veio na minha direção. Eu disse: "Que bobagem, você está linda, nem parece que ficou presa no..." Ela veio direto na minha boca e me beijou...  Meu coração disparou e minha língua ficou maluca... Aquilo não fazia sentido, nada fazia sentido... Ela me olhou direto na cristaleira da minha alma e falou bem baixinho como se estivesse implorando: "Faz amor comigo" Canalha, eu sou um canalha! Ela estava fragilizada, ou mesmo agradecida por te-la tranquilizado... Sei lá!! Eu estava na minha casa... Outro beijo e dessa vez ela me mordeu a língua. Da boca passou para meu pescoço e outra mordida... Suas unhas fincaram em minhas costas... Eu
estava perdendo essa guerra! Tirei minha camiseta de uma puxada só pela cabeça e joguei longe, estava me sentindo Burt Lancaster beijando Deborah Kerr na cena mais ardente de beijo na história do cinema. Maliciosamente com as mãos afastei as alças finas de sua blusa, meus dedos sentiram a textura de sua pele... A única coisa que não podia ter acontecido naquela hora,  que me daria um fôlego para pensar, aconteceu. Veio direto nos meus olhos como numa cena de 3D no cinema... ela estava sem sutiã... Beijos e mais beijos e fomos nos arrastando agarrados pro quarto... Fizemos sexo como dois macacos no cio, libertários, loucos, os últimos passageiros a embarcar para a terra da fantasia... Todas as mulheres antepassadas de minha família que nasceram depois de Eva estavam debruçadas na grande soleira da janela do céu e me encaravam com ódio. Podia senti-las! Gritavam freneticamente e gesticulavam de punhos fechados em minha direção: Canalha! Canalha! Canalha!... Quase em coro. Os homens, filhos de Adão, pais de meus pais... Assobiavam e aplaudiam de pé!!! Como Somos canalhas!!! Sei que nenhuma mulher irá me entender, mas o tempo e o Universo pararam de orbitar para que eu pudesse fazer amor com aquela mulher como se fosse a minha despedida da vida!!!... Quando a febre acabou fui ao banheiro jogar água na cara. Ainda pensei no caminho: "Essa culpa é da merda do Lula e dos seus cabos de transmissão deficientes... Se não tivesse tido o apagão isso não teria acontecido..." Eu estava 50% arrependido e 50% extasiado... Quando voltei ao quarto Simone saía do banheiro da suíte já vestida como se nada tivesse acontecido, linda, segura, serena, mulher!!! Ela se aproximou, me deu um abraço e disse baixinho no meu ouvido: "Deixei uma surpresa para você se lembrar de mim quando for se deitar..." Me deu um beijo, um pequeno papel rabiscado de batom com o seu telefone e foi embora!!! Estive no olho do furacão e agora só havia paz e um silêncio desconfortante... Não sei bem quem comeu quem, mas por algum motivo psíquico-molecular lembrei que era casado eque havia feito sexo com uma estranha na minha cama?!?!
O que foi que eu fiz??? E qual teria sido a porra da surpresa que ela deixou no meu quarto?? Quase duas da manhã e Bárbara chegaria daqui a poucas horas. Desabei sobre minha
cama, a luz do teto me acusava, fiquei olhando para todos os lados, olhei pro teto, olhei as paredes em volta e não vi nada diferente! Sucumbi... Cai num sono profundo ou desmaiei de cansaço... Na manhã seguinte levantei como se a cama estivesse cheia de pregos. Arranquei o lençol da cama, olhei minuciosamente cada centímetro... Nada! Arranquei as fronhas, virei para o lado para o outro. Nada! Me atirei debaixo da cama. Nada! Tirei o colchão de cima do estrado. Nada!... Olhei cada ripa de madeira do estrado. Nada!... Abri as gavetas das mesinhas de cabeceira, joguei o conteúdo das gavetas no chão, olhei tudo... Nada! Olhei atrás da porta do quarto, atrás da porta do banheiro da suíte, debaixo do telefone... Nada! Levantei os tapetinhos próximo da cama, olhei atrás das cortinas, olhei atrás do espelho, atrás do quadro... Nada! Eu estava ficando maluco com aquilo. Pensei: "Ainda bem que Bárbara só chegará a noite, eu tenho ainda um tempo para procurar." O telefone tocou: "Oi amor, está sentino a minha falta? Dormiu bem?" "Oi Bárbara..." "Vai dar para chegar mais cedo, papai está bem, estou na rodoviária quase entrando no ônibus... Está tudo bem mesmo??? Achei sua voz estranha... Aconteceu alguma coisa no apagão??" "Claro que não!!!... O que poderia ter acontecido????... Eu estava aqui em casa... Dormi o tempo todo..." "Ok?!?!... Estou indo para casa, não demoro amor. Tchau!" Fudeu! Fudeu geral... O que a Simone deixou aqui em casa para eu lembrar dela quando eu fosse dormir??? As buscas reiniciaram, mas agora freneticamente, o pavor havia tomado conta de mim... Até na lixeira do corredor do prédio fui olhar, debaixo da geladeira, dentro do forno, a trás do microondas, na máquina de lavar, no sexto da roupa suja.... Passei o aspirador de pó na casa toda... Eu estava perdido!!! As horas passaram muito rápido... Ouvi a chave rasgando a fechadura da sala, era Bárbara! Não sabia mais o que fazer. Lancei mão da última forma de descobrir o que afinal Simone havia deixado aqui em casa para que eu me lembrasse dela quando fosse dormir, iria ligar para o seu celular... Eu tinha certeza que Bárbara descobriria imediatamente o que era, mais rápido do que um relâmpago, as mulheres são feiticeiras, além de terem um olhar de raio x, elas leem nossas mentes... Estou perdido! "Bernardo, onde você está meu amor???..." Fugi para o banheiro, me tranquei e me ajoelhei no canto do box. "Alou..." Aquela voz doce de novo no meu ouvido. Sussurrei baixinho tentando transmitir segurança: "Oi Simone, sou eu Bernardo..." "Oi meu herói, que bom que você ligou..." Eu não queria passar a ideia de ser um estúpido, ignorante, grosseiro, covarde e assustado, por isso caprichei na voz e perguntei: "Fiqueeeiii tãaaaooo feliz sobre tudo que aconteceu que não achei..." "Alou, Bernardo, a ligação está falhando, estou te ouvindo muito baixinho..." "Bernardo você está ai no banheiro? Abre a porta, meu amor... Quem fez essa bagunça aqui no quarto??... Bernardo!!..." "Não achou o que???" "Você sabe... aquilo... Você sabe..." "Não sei do que você está falando..." "Você disse que tinha deixado alguma coisa no meu quarto para lembrar de você quando fosse dormir... O que foi... Me diz, vai..." "Bernardo foi um assalto?? Você está bem??" "Puxa você não sentiu nada diferente??..." "NÃO!!! Quero dizer, nãaao. Tudo ficou tão especial e
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diferente depois que nós... Aaah, me fala, o que você deixou aqui em casa que eu não achei Simone???" Com voz gelada e distante ela disse: "Todo homem é igual, nascem com bolas demais e  sensibilidade de menos. Eu deixei três gotas do meu perfume no seu travesseiro..." Passados mais de 2 anos, até hoje quando entro no quarto distraído me pego olhando em volta e fico me segurando para não olhar debaixo da cama... Não existe homem santo, todos foram queimados na inquisição católica entre os séculos 16 e 19, então o melhor a fazer é vigiar, vigiar e vigiar... No mais, negue sempre...   
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Bernardo Pedrosa

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

UM LUGAR PARA FICAR...







                                        Que fome. Já passa da meia noite e chove muito. Apesar de ser janeiro à temperatura está agradável. Através da janela de outra pessoa vejo que o céu e a chuva parecem os mesmos, os números do relógio, o som do tic-tac, até o silêncio não mudou, eu é que não me reconheço. Acho que as mudanças fizeram da minha vida seu ninho... Esse casamento desfeito me colocou do lado oposto da porta, agora o olho mágico não aumenta mais as imagens, só as diminui. Dias antes de sair fiz preparativos como se fosse viajar para o outro lado do mundo, mas atravessar a rua sozinho e colocar meus pés na calçada oposto, viria a ser o lugar mais distante que cheguei... Como é difícil desfazer-se de quinquilharias! Durante séculos guardei coisas como se fossem o corpo embalsamado de um faraó da mais nobre dinastia. Um olhar pouco severo me fez ver que as "preciosidades" não passavam de papéis amarelos e objetos de pouco valor. Beatriz quis dividir de alguma forma os móveis, os talheres, as roupas de cama... Nossa! Uma tela de Picasso faria mais sentido do que saquear minha casa e deixá-la banguela, cotoca, desguarnecida. Uma vez escrevi: "A maior conquista de um guerreiro é conservar a sua integridade e os dedos que seguram a espada, pois dependerá deles na batalha do dia seguinte." Com uma caixa de papelão pesada cheia de "preciosidades", caminhei para a porta como se o chão fosse de manteiga, quis dizer alguma coisa, mas estava com a garganta travada! Se não fosse a bruta vergonha que senti na hora, teria chorado como uma criança no seu primeiro dia de escola. Só não queria passar pela porta encurvado... Dez dias antes eu havia ligado para a irmã do meu pai e tivemos a seguinte conversa: Tia:"Alooouu." Ricardo:
ROBERTO  &  TIA
"Oi, tia, sou eu..." "Você soube que tive que remover-um câncer de pele em meu rosto? Levei 10 pontos!" "Sim, tia, eu soube. Fiquei feliz em saber que correu tudo bem..." "Não me venha com essa, você foi incapaz de me ligar e nem veio me visitar!" "Eu sei tia... Olha, foi mal! Tem coisa demais acontecendo. Minha vida está meio confusa... Eu liguei porque estou precisando de uma ajuda." "Ah sim? O que foi?" "Eu preciso sair daqui de casa. Preciso de um lugar para ficar por um tempo, apenas enquanto procuro uma casa nova... Posso ficar ai?" A resposta veio na sequencia: "Mais claro que não!" "Não?!? Como não? Esse apartamento tem três quartos, a senhora vive sozinha..." Percebi a tempo que havia ficado nervoso de mais para continuar a conversa e que não havia considerado a possibilidade de uma recusa. Dei uma respirada e continuei: "Tudo bem tia... Ninguém é obrigado a abrir a sua casa para os outros, mesmo que seja para um afilhado... Eu ligo outra hora." 
ROBERTO  &  RICARDO
Desliguei. O universo precisou de poucos instantes para se revelar infinito... Então liguei para meu irmão, contei a mesma história e ele disse: "Tudo bem, venha e fique o tempo que precisar..." Foi quando voltei a sentir o chão debaixo dos meus pés e o formigamento do meu ventre diminuir. Minha cunhada Carla está grávida de um menino e eles só têm dois quartos: o deles e do meu sobrinho Guilherme. Não que eu me importasse de dormir no travesseiro do Pateta e me cobrisse com o lençol do Batman, mas fiquei constrangido com tudo isso e disse ao Beto: "Cara, fala com tua mulher, a casa é de vocês. Isso tudo é muito chato. Conversem, eu ligo mais tarde..." Desliguei. Já ia me levantar quando o telefone tocou, era minha tia: "Tudo bem, pode vir, mas não deixe de procurar uma casa para você, ninguém deve viver de favores..." Pensei na hora: "Minha viajem para o outro lado da calçada está apenas começado..." Dez dias depois, aqui estou, na casa da minha tia, olhando pela janela de alguém a chuva que pertence a todos, revendo meus filmes em preto e branco, colecionando perguntas e poucas respostas. É engraçado ser tratado como criança. Minha tia tem 82 anos e muito lúcida, mas esquece que já passei dos 50. Agora a pouco tomei banho e me vesti para sair e comer alguma coisa, no meu caso tristeza abre o apetite. Para ser discreto saía pela porta dos fundos até ser sacudido por uma voz: "Onde você vai?" "Vou comer alguma coisa..." "Bobagem, tem tudo em casa. O que você quer?" Fechei a porta e fiquei até emocionado com esse carinho... "Sei lá, eu... Quem sabe um bifão mal passado na manteiga com bastante cebola e um copo de coca gelada!?" Minha boca fez água e meus olhos se expandiram com a testa que os puxou... "Vai pra sala!" Minha tia seguiu para a cozinha e fui me sentar a cabeceira da mesa. Meus olhos flutuavam pela sala, um forte tic-tac vinha de um relógio antigo atrás de mim, olhei para os quadros desalinhados, para o arranjo de bibelôs de cristal na estante e as cortinas balançavam em câmera lenta. Pensei na minha casa "do outro lado da calçada", senti um imenso vazio e a sensação de ter deixado braços e pernas na casa antiga era muito forte. O silêncio fazia parte da decoração, exceto pelo som da chuva forte chocando-se contra as vidraças. Fiz um trato comigo mesmo, não importava como chegasse o tal bife, ele seria elogiado como se fosse a carne mais gostosa do mundo. "Que fome!" Minha tia entrou na sala com ares de formalidade, tinha as mãos uma bandeja de prata manchada e mal polida. Colocou as seguintes coisas diante de mim: Meio pacote de biscoito cream-cracker, uma latinha de atum no óleo, um concentrado de manga, uma garrafa com água, uma cambuca de gelo e disse: "Não tenho carne, mas tenho esse atum maravilhoso. Sempre guardo uma latinha em casa para uma emergência... Tudo bem?" Minha consciência se agarrou a minha língua e meu coração o microfone da alma e respondi: "Claro, tia!... Eu adoro atum em lata..."

Feliz 2012, vou procurar fazer o mesmo.

11-01-2012