Era tarde da noite quando, em agosto de 2017, eu voltava para casa de moto após uma reunião com os irmãos. Fazia muito frio e eu tinha pressa de chegar em casa, nem me lembro porque... Ao passarpela Av. Fábio Franco, uma das vias centrais da cidade em que moro chamada Macaé, vi alguns metros a frente um homem deitado atravessado no chão da calçada. A posição em que ele estava não era de quem procurou abrigar-se debaixo de uma marquise, como normalmente os moradores de rua fazem; na verdade parecia estar caído, um braço sobre o peito e o outro esticado, pernas dobradas... Enquanto me aproximava, olhei mais a frente, vi que o local era pouco iluminado e que a rua estava deserta. Me senti seguro por estar sobre a moto em movimento. Fiz uma oração e pedi a Deus que protegesse aquele homem das condições adversas em que se encontrava; para quem um dia esteve nos braços de sua mãe, naquele momento ele era a imagem da derrota: caído na calçada próximo ao meio fio, de camiseta, numa noite fria de inverno... Pensando melhor agora, acho que a oração foi mais para aquietar minha consciência e sentir que havia feito alguma coisa por aquele homem. Quando cheguei em casa tomei um susto ao colocar a mão dentro da mochila e ver que havia deixado o controle remoto do portão lá no local da reunião. De olhos arregalados saí comendo o asfalto para chegar a tempo antes que a última pessoa saísse e eu encontrasse o local fechado. Quando lá cheguei esbaforido vi essa "última" pessoa virando a chave da porta e quando me viu, abriu um sorriso e disse: “Esqueceu o controle remoto!” Eu sorri também, fiz aquela cara de idiota que fazemos quando esquecemos alguma coisa. Peguei o controle e sai. Para minha surpresa a primeira coisa que me veio à cabeça, assim que enfiei a chave na ignição da moto para voltar para casa, foi que eu cruzaria novamente com aquele homem caído próximo ao meio fio, e que eu preferi, desde o início, acreditar que estava apenas dormindo. De longe ao avistá-lo no mesmo lugar, franzi a testa, seria muita cara de pau da minha parte orar novamente para dizer a mesma coisa...“O que vou fazer?", pensei. Eu me compadeci dele. Ter visto, falado e tocado em tantos homens, mulheres e crianças, moradores de rua na distribuição das refeições nas terças a noite em trabalho voluntário da igreja, não me permitia mais ficar indiferente; mas senti medo! Quanto mais eu me aproximava, diminuía a velocidade da moto como se estivesse instintivamente tentando ganhar tempo para pensar melhor. Passei por ele e três metros
depois, parei e olhei para trás. Eu tenho um pequeno demônio de desenho animado que, em algumas situações, aparece do nada e pousa no meu ombro esquerdo, mas também tenho um pequeno anjo de desenho animado que chega junto logo após o surgimento do "inimigo" e se assenta no meu ombro direito. Quando olhei para trás o demônio se agarrou na minha orelha e gritou com todas as suas forças, enquanto apontava para o homem caído: ”É golpe, ele está deitado sobre uma faca fingindo estar dormindo. Ele está esperando você se aproximar para te assaltar, ele vai te matar, seu idiota, acorda! Sai daqui agora, corre pra casa. Salve a sua vida!” Quando essas palavras surgiram no meu pensamento, minha respiração ficou mais profunda e acelerada, meus olhos percorriam agitados aquele corpo caído, o vazio da rua que nos cercava e meus medos faziam com que eu mantivesse minhas mãos agarradas ao guidão da moto. Eu me sentia só e amedrontado. Era realmente prudente sair dali o quanto antes. Assim que cheguei a essa conclusão, o anjo disse mansamente: “Homem de pouca fé, você está tendo a segunda chance de fazer alguma coisa por esse homem e vai fugir? Nada é por acaso... Você não está sozinho, maior é aquele que está contigo do que o que está no mundo*...” Essas palavras me balançaram, achei dentro de mim, agachado num canto, um sentimento de dó por aquele homem, parei de olhar para os meus medos e olhei para a criatura indefesa, gelada, desprotegida, vazia e submissa ao caos. Desliguei o motor e desci, por pouco não deixei a moto ligada, cheguei a sentir vergonha de minha tamanha covardia, mas deixei a chave no contato; o anjo tinha razão, sou sim um homem de pouca fé... Me aproximei devagar, mais querendo voltar do que seguir em frente. Quando cheguei junto a ele senti o cheiro do abandono. Ele estava com as calças molhadas e sua urina fazia um caminho de rio até o asfalto. Curiosamente tê-lo visto todo mijado me deu a segurança de que a sua derrota era verdadeira. Sua cabeça encostava no chão e sua boca estava entreaberta com parte da sua língua para fora. As pernas estavam entrelaçadas, como se ele tivesse chegado até ali rolando ribanceira abaixo. Ele não se deitou, ele dormiu onde caiu. Me abaixei e chamei por ele, fiquei com medo de uma reação agressiva, não sabia se estava embriagado ou drogado, mas puro certamente não estava. Eu o chamei várias vezes até que ele abriu os olhos, me olhou confuso e desorientado. E falei: “Amigo, você está deitado no meio da calçada, está longe da marquise, à madrugada vai
ser gelada, fica debaixo da marquise daquela daquela loja...” Perto dele tinha uma garrafa plástica vazia de meio litro da cachaça mais vagabunda que existe no mercado, um saco de supermercado com coisas dentro e uma peça de roupa que não identifiquei qual era espalhados em sua volta. Ele estava absolutamente bêbado e desorientado. Parecia que falávamos línguas diferentes, ele não respondia ao que eu perguntava e eu não entendia o que ele dizia. Perguntei seu nome e ele disse qualquer coisa que não fez sentido para mim, voltou a fechar os olhos, inclinou a cabeça até encostar no chão e voltou a dormir. Lembrei que naquele inverno a prefeitura havia montado duas grandes barracas na Praça Washington Luiz, no Centro de Macaé, eram abrigos para os moradores de rua passarem as noites, um feminino e outro masculino. Comecei a pensar como iria levá-lo para lá de moto naquele estado de embriaguez? Eu tinha dentro do banco duas cordas elásticas, minha primeira ideia foi amarrá-lo ao meu corpo e seguir para lá, aqui em Macaé quase tudo é próximo e em menos de 10 minutos eu chegaria com ele. Mas se ele caísse? Certamente me levaria junto pro chão com a moto em movimento. Fiquei frustrado por ter conseguido superar meus medos, mas que efetivamente não estava conseguindo ajudá-lo. Enquanto eu desembaraçava meus pensamentos, com o demônio de um lado gritando para que eu fugisse e meu anjo do outro pedindo que eu não desistisse do cara, uma luz foi crescendo por trás de mim até ficar bem forte, projetando a sombra de nós dois numa imagem única na calçada. Era o farol de um táxi que parou para descer um passageiro. Enquanto o passageiro se afastava fui falar com o motorista: “Boa noite meu amigo, desculpe-me incomodá-lo, mas eu achei aquele homem caído na calçada, ele está embriagado, é morador de rua. A noite está muito fria. Pensei em levá-lo para o abrigo da prefeitura lá da praça, pode me ajudar nisso? Eu estou de moto, não tenho como fazê-lo...” O motorista disse que não poderia me ajudar porque havia acabado de receber uma chamada de outro passageiro e teria que sair em seguida. Dei outra desanimada. Estava virando o corpo para me afastar quando o motorista falou: “Veja com esse passageiro que desceu do táxi agora, ele é membro de uma igreja, quem sabe ele não te ajuda?” O que eu tinha a perder? Apressei o passo para alcança-lo. Ele estava abrindo um portão branco de garagem. Sempre fico preocupado de alguém achar que é um assalto, ainda mais quando é tarde da noite, já cheguei dizendo que precisava de ajuda e expliquei a situação. Era um homem jovem, missionário de Santa Catarina da Igreja Adventista do Sétimo Dia, igreja, por sinal, que eu não tinha nenhuma afinidade, diferentes dos conceitos que me ensinaram, diferente dos contornos de um Deus que materializei para a minha fé e oração. Preconceitos bobos de uma visão turva em que Deus não pactua... Deus tem um senso de humor muito próprio! O missionário olhou por cima dos meus ombros e viu o homem caído na rua, olhou para minha moto um pouco mais adiante, abaixou os olhos e olhou para as chaves em suas mãos; percebi que estava avaliando a situação e certamente o demônio e o seu anjo também negociavam com ele. Por fim ele disse: “Meu carro está na garagem da igreja, deixa a sua moto aqui dentro e vamos levar o homem no meu carro”. Gritei em pensamentos: “Consegui!” Confesso que não contei ao missionário o detalhe do homem estar com as calças molhadas de xixi, foi sugestão do demônio e essa eu aceitei... Corri animado até o homem caído na calçada e precisei, novamente, chamá-lo várias vezes até que ele voltasse à consciência. Por alguma razão, as circunstâncias alinhavaram uma confiança entre nós, apesar dele não entender muito bem o que eu explicava, ainda sim aceitou, com minha ajuda e do missionário, a se levantar do chão e sentar-se no banco de trás do carro. Voltei até a calçada para juntar seus pertences, um saco plástico de mercado com coisas dentro e uma peça de roupa que não identifiquei qual era; e me sentei na frente ao lado do motorista. No caminho o missionário disse que estava emMuito obrigado missionário André!
| 22-07-2018 |
* 1 João, cap. 4
Filhinhos, vocês são de
Deus e os venceram, porque
aquele que está em vocês é maior
do que aquele que está no mundo.
** Mateus 6:34
Portanto, não se preocupem com
o amanhã, pois o amanhã trará as
suas próprias preocupações. Basta
a cada dia o seu próprio mal.
Mateus 25:35-40
Porque tive fome, e destes-me de comer;
tive sede, e destes-me de beber; era
estrangeiro, e hospedastes-me;

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