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A eternidade é o
momento que se renova

Nosce te ipsum
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γνωθι σεαυτόν
γνωθι σεαυτόν


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ASSISTINDO TEU SONO PROFUNDO...

Hoje faz exatamente 1 ano que rabisquei num papel como foi ter despertado no meio de uma madrugada quente e perdida entre outras madrugadas que não despertei... O tempo não esmaeceu nenhum detalhe, sinto tão vivo como se tivesse acontecido agora a pouco. Garimpando minhas pastas empoeiradas, surgiu esse texto escrito numa folha amassada. Agora também é madrugada do dia 07 de dezembro de 2011, mas hoje em nada lembra aquela noite...


Numa dessas noites quentes de verão, despertei alheio a motivos, tão suave e infiel, que fui juntando meus pedacinhos para perceber que estava acordando. Voltei daquele lugar que nos refugiamos quando não estamos vivos, onde posso voar, gritar e andar nu pelas ruas da fantasia... Ainda bêbado do sono que me devorava, ignorei o relógio, não me interessei em saber a que horas andava o tempo. Na verdade cheguei a me deleitar com essa ignorância, pois aquele que me comanda o dia, ali, no canto, calçado de sombras, era apenas um vulto desalinhado despido de importâncias. Assim devem viver os anjos, sem o tempo a envelhecer suas asas, sem os ponteiros espetando suas almas. Apenas existem! A madrugada tem luz própria, alguma lua se espelha nas nuvens e estas dividem seu sorriso com a penumbra; não senti o bem nem o mal, só me senti parte de tudo aquilo. O relógio baixinho roncava seus tic e tacs; o coitado também se entregou ao sono. As águas do oceano, que se aqueceram durante o dia, tragavam o ar mais fresco da costa, e nesse caminho de fuga uma brisa fresca invadiu o quarto com um único propósito: mexer nos cabelos da mulher que adormecia ao meu lado. Foi para isso que os anjos me acordaram? Para ver seus cabelos caírem em seu rosto? Alados travessos... Meus olhos deslizaram para a janela e pude ver milhões de estrelas, e mesmo sabendo que a muitas delas já estão extintas, naquele instante e só pra mim, a luz desses vagalumes me fizeram companhia. Um movimento inocente do seu corpo atraiu minha atenção e sem pressa, olhei cada detalhe das suas curvas e de suas dobras e te desejei. Assistindo teu sono profundo, sua respiração era a música que fazia seus seios dançarem, desenhos indefesos que me aliciavam e me umedeciam a boca. Em meio ao silêncio distante e esquecido que só a madrugada produz, contemplei teu rosto; sereno, sem emoção, sem riso, sem raiva, apenas sono. Pude te olhar seguro que não me perguntaria “porque me olhas?” Senti tamanha satisfação nesse anonimato, um particular amor da intimidade inconfessável dessa hora. São lembranças que me transbordam a alma; momentos, filmes dos nossos dias, nem todos tão bons, nem todos tão ruins, apenas dias. O sono veio reclamar seu direito ao meu corpo, não iria partir sem antes cheirar teus cabelos como a uma flor e beijar tua boca como um ladrão; um beijo que tive estrelas mortas como testemunhas. A vida é terra nas botas de quem caminha. Agora, pensando nisso tudo, nem sei se de verdade acordei naquela noite ou se fui uma vítima da magia dos meus sonhos. Ainda confuso me resta à sensação de que numa madrugada, de uma noite de verão, roubei um beijo da tua boca e este eu nunca vou devolver...
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07-12-2010





Eu escrevi esse texto há muitos anos, tantos que nem sei. É como um confessionário do que fiz, o roubo de um beijo sem presenças, tendo apenas as sombras das paredes como testemunhas. Ela mesma nem sabe dessa história... Às vezes eu acordo no meio da noite, bebo água, fecho a janela se está frio ou escancaro se me abafo com os humores do ar. Numa noite antiga, que os dias colocaram lá atrás na fila da continuidade, acordei, olhei sonolento pra ela, olhei lá pra fora para um céu borrado de estrelas que só aparecem no verão, cheirei seus cabelos, beijei sua boca e voltei a dormir; coisas de marido que as esposas não sabem que passam. Vocês mulheres, tão ávidas em querer saber tudo, controlar tudo, quando dormem são apenas encantos embrulhadas em sonhos, tão lindas e frágeis, cativas de olhares furtivos do homem que respira o seu ar... O tempo passou, algumas estrelas se apagaram, o amor se desmaterializou, a cama e a janela não existem mais, o que sobrou, na rede que puxo dessa vida, são dois filhos lindos, lembranças dos dias que sorrimos e dos que nem sorrimos tanto assim... A vida é como um caminhar nas margens do rio, vamos recolhendo pedrinhas pelo caminho, a maioria não lembramos onde guardamos, mas umas aqui, outras ali, ficam mais vivas na lembrança, ainda que sirvam apenas como pesos sobre papéis onde escrevemos os nossos dias.
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Macaé, 25-04-2017

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O CARA!!!


Boa noite amigo. Agora o relógio do meu computador marca 23:37min. Depois de um longo dia de trabalho achei que iria chegar em casa, afrouxar o coração, fumar meu cachimbo, tomar aquela vodca polaca com gelo grudado no gargalo, ouvir umas baladas dos anos 70, talvez falar das coisas que tenho saudade, talvez chorar a saudade dessas coisas, largar meu corpo sobre a cama, relaxado, tendo poupado R$ 200,00 de consulta com um analista próximo de casa... Porra nenhuma!!! O universo me pertence depois que os filhos dormem... Meu filho mais novo está em crise... Caralho!!!! Ele não sabe o que é uma pensão alimentícia para falar de crise!!... Perdoe-me o palavreado. Estou cansado!... As pernas vão, a mente grita: vai, vai! O peito se enche de ar. Os braços erguem as mãos que apertam os botões... Mas não há sabor nesse prato frio que se come da mesma forma todos os dias... Tem uma música do Djavan que na letra fala: "Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar... Sabe lá..." Estou sem carinho de mulher, sem sexo, estou só... As "primas" que me perdoem, mas o que me distingue dos animais é o amor... "Quer falar de “crise”???" Perguntei a ele: “Está com problemas na escola, está fazendo terapia para entender seus problemas??? Você acha que é o único que tem problemas??? Você acha que amo todos com quem trabalho? Eu saberia dar uma função melhor aos meus dentes do que sorrir para quem não suporto... Eu saberia fazer algo melhor do que ter que ir todos os dias ao trabalho enquanto o mundo está lá fora me chamando para conhecê-lo... Quando sei que não tenho vida suficiente para conhecer um terço do que gostaria, ainda que saísse agora, correndo... Se paro agora... amanhã a panela estará mais vazia do que suas frustrações... Frustrações!?!?!... Quer falar de frustrações??... Como todos os dias frustrações no café da manhã..." Ele ficou me olhando com a boca aberta... Merda! Não é a melhor opção desabafar com um filho, ainda mais se ele só tiver 18 anos. Respirei fundo, veio um silêncio sobre nós, olhei para meus sapatos que precisam de graxa, e disse a ele: "Vai tomar um banho quente, filho... Vou fazer o jantar!" Ele se virou calado e foi pro banheiro... Fiz macarrão com bife acebolado. Fatiei a cebola em rodelas finas, derreti duas colheres de sopa de manteiga, joguei a cebola, inclinei a frigideira e fui mexendo, uma pitada de orégano, três gotas de alho líquido, uma raladinha de nós moscada... estava irritado comigo mesmo por ter falado mais como um cara do que como pai. Quem sou afinal? Pai? Cara? Homem? Sou a mesma pessoa que fui a minha vida inteira, mas aprendi a conviver com meus arreios; com minhas limitações e a conviver com aqueles sonhos que nunca terão as cores da realidade... Nos sonhos as cores são borradas!!! Jantamos em silêncio um de frente para o outro e ele comeu tudo, depois repetiu de novo... Minha comida devia estar boa! A coisa é assim: ou você não tem filhos e passa a sua vida pensando como seria tê-los ou você tem filhos e passa a sua vida pensando o que faria se não os tivesse... No final do nosso jantar disse a ele: "Você só tem essa semana para terminar a escola, faz as aulas de recuperação dessas matérias e depois é férias... As coisas nem sempre são tão boas que não se possa chorar ou tão tristes que não se possa sorrir. Os dias vem e vão, mas procure não perder o foco do que é importante e não deixe de esticar o pescoço para descobrir coisas novas lá na frente..." As vezes acho que ele me escuta falando grego, e nem sempre estou com "saco" para me traduzir... 
Não tenho lido jornais, mas lembro que antigamente havia uma seção de Desaparecidos, Sumidos, Abduzidos... Sei lá! Será mesmo que todos foram levados por alienígenas? Será mesmo que todos foram raptados para que seus órgãos fossem retirados para o mercado negro internacional? Será mesmo que todos morreram e foram enterrados como indigentes??? Será mesmo que o extraordinário os absorveu...??? Será mesmo??? Ou seus pés cansados levaram seus corpos cansados para o nordeste começar vida nova a beira de um mar azul da cor do céu??? Para ter suas orelhas aquecidas por um par de seios de uma linda cabocla, de pouca cultura, fascinada pelo seu palavreado cortes e educado??? Onde habita a coragem? Nos que se amochilam de esperança e vão ou nos que se amordaçam e ficam nas torres de arma em punho enfrentando os inimigos até a secura de suas peles??? Acabei naquela noite fumando mecanicamente meu cachimbo, tomei minha vodca pura, não ouvi as baladas dos anos 70, não chorei de saudade e vou para cama preocupado de acordar amanhã cedo, pois tenho uma pilha de sorrisos que não quero dar para distrubuir por ai...  e minhas mãos fedem a cebola... Hein? O que você disse? Quem? O Felipe? Está dormindo de barriga cheia na sala... Estava assistindo um filme... Vou deixá-lo ali mesmo e jogar um cobertor por cima...

Até a próxima... Se eu não for “abduzido” antes... 


Ricardo Cacilias


sábado, 3 de dezembro de 2011

20 ANOS COM VOCÊ...

Estou feliz, hoje é dia dois de dezembro de 2011 e minha filha Thaís está fazendo 20 anos. Quando coloquei aquela velha mochila nas costas e disse para meus pais que iria ganhar o Mundo, não pensei que viria até aqui rolando ladeira abaixo, fingindo estar sobre o controle de tudo, fazendo caras e caretas de que eu me ordenava, enquanto enchia a boca de gramas e cascalhos... Nós escrevemos o nosso destino, mas é Deus quem autoriza o roteiro. Entre as idas e vindas da minha vida, consegui esticar meus braços e colhi 4 estrelas do céu; a cada estrela dei um nome: Renata, Marcelo, Thaís e Felipe. Fico pensando se depois de tantas escoriações, se depois de tantas mochilas aquecerem minhas costas, como seriam minhas noites sem as luzes dessas estrelas? Quando a gente cresce a roupa vai apertando, não dá mais para vesti-la, mas sinto saudade de ser filho, sinto saudade de meus pais, sinto saudade de suas vozes me chamando, sinto saudade de como era a minha vida antes de resolver ser abusado e querer me vestir de adulto. Hoje, no aniversário de 20 anos da Thaís, lembrei dos meus pais e chorei. E
Thaís
pensava ser o senhor da minha vida, mas reconheço hoje que o senhor da minha vida é o Deus que me habita. Uma vez assisti a um filme com uma cena de atropelamento, em algum momento da vida daquela pessoa, durante uma caminhada, ela esbarrou-se com a morte vigilante. Logo após o acidente, o filme para e retrocede 10 minutos e, passo a passo, são mostradas diversas situações que teriam impedido aquele atropelamento: ao chegar no elevador a pessoa o encontra repleto, poderia ter aguardado o seguinte mais vazio, ao invés de ter se espremido; ao chegar na portaria vinha chegando uma senhora com bolsas, ao invés de segurar a porta e deixar a senhora passar, a pessoa apressa uns passos e sai antes da senhora chegar; já na rua alguém pede uma informação e ao invés de parar, de ser solidário, apenas emite uma resposta curta "não sei onde fica..." e se afasta apressado. Qualquer um desses momentos faria a pessoa se atrasar um minuto no encontro com a morte, teria a visão do carro que a mataria, passaria em sua frente e se afastaria... Um desprezível momento e toda a sua vida muda. Tenho procurado viver intensamente essas desprezíveis frações de segundos, porque a vida é preciosa e não pode ser refeita. Hoje acordei cedo e me lembrei do aniversário dela. Pensei: "O que vou fazer para que ela saiba que hoje é um dia especial para mim?" Eu nunca havia dado flores para  a
minha filha... era 
isso, então, que eu iria fazer! Flores não têm vida longa, mas às vezes vivem para sempre. Eu queria me sentir especial para dar aquelas flores; tomei um longo banho, coloquei uma camisa nova, usei meu tênis bonito da Mr Cat, coloquei meu perfume preferido em volta do pescoço e ajeitei meu cabelo, puxava uns fios pra lá e pra cá sobre a testa para dar um ar jovem e natural... Cara, como sou ridículo! Tem uma floricultura na Farme de Amoedo, em Ipanema, que vende umas rosas colombianas que se abrem lindas e duram mais tempo. Parece que o português cobra o valor das flores e as passagens do avião que as trouxe ao Brasil. Fui entrando e dizendo: Hoje é o aniversário da minha filha! Vim comprar flores!” Eu parecia meio abobado de alegria por estar fazendo o que estava fazendo. Fui atendido por uma vendedora, que me sugeriu: "Dê rosas rosa misturadas com essas rosas lilases." Nossa, pensei, eu nunca tinha visto uma rosa lilás, era lindíssima... 
"Gostei! Quero meia dúzia de cada..."  Sobre o balcão havia um cartão branco para escrever alguma coisa. Era um cartãozinhozinho, escrever o que quando se tem tanto para dizer? Fui criativo: "Feliz aniversário filha. Te amo. Papai." Peguei as flores, coloquei no meu colo, sentei na moto e fui para a casa da sua avó. Ao chegar, interfonei e pedi que ela descesse. Escondi as flores atrás de uma coluna de sustentação do prédio e esperei. Thaís chegou com seu sorriso na frente, lhe dei um longo abraço e um beijo: "Feliz aniversário, filha!" Ela sorriu. "Obrigada, pai!" Perguntei se teria “festa” mais tarde, ela disse que iria num bar com o Felipe, meu filho, primos e uns amigos. Meio sem saber o que dizer, disse qualquer coisa para dar continuidade à conversa: "Estou convidado? Posso ir?" Falei por falar... Ela disse rindo: "Naaão, pai! Não chamei nenhum velho, nem a mamãe vai..." Ai! Com essa, minha franja ficou desarrumada! Ela está linda com aqueles zoião que eu tão bem desenhei.Lembrei que tinha que trabalhar, puxei as flores de trás da coluna e disse: 


"São pra você..." 

As flores e a passagem de avião ficaram baratas, meu presente foi assistir a sua expressão de surpresa, ver refletidos em seus olhos as rosas que eu segurava em minhas mãos. Thaís abraçou as flores como quem abraça uma criança e o som do papel laminado se dobrando parecia fogos de uma noite estrelada de São João. Eu me senti o maior "cara" do mundo! Nos beijamos, subi na moto e continuei rolando ladeira abaixo, gastando a gasolina pelos caminhos da vida... 
Essa noite resolvi festejar seu aniversário, escrevendo esse texto para dizer como ela é importante pra minha vida... 


Feliz Aniversário, filha.
                 02-12-2011





segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UM CORAÇÃO CEGO...





Eu estava na sala passando umas camisas com o rádio ligado, era quase 9hs da manhã; parei por uns instantes o trabalho que estava fazendo no computador. Um som metálico rasgou a fechadura e a porta da sala abriu, era Isaura, o anjo que trabalha aqui em casa. Quando ela me viu com o ferro numa mão e uma camisa na outra, perguntou: ”Está querendo roubar o meu emprego?” Gosto desse humor sarcástico que ela faz as vezes, não evitei o riso e respondi: “Bom dia pra você também Isaura, até que não seria mal um dinheirinho extra... E rimos juntos. Um pensamento inesperado fez os músculos do meu rosto se agruparem novamente e desfez o meu sorriso. Falei num tom pausado e impessoal: "Tem coisas que me provocam o pensamento: passar roupa e correr na esteira da academia, por exemplo. Eu estava trabalhando quando me deu saudade da minha mãe... Ela costumava passar pilhas das nossas roupas com bom humor, cantava as músicas da Dalva de Oliveira, Maysa, Ângela Maria... Ai resolvi matar saudades dela, vim passar algumas camisas" Isaura, no seu silencio discreto de sempre, apenas me olhou com ternura. Ela pendurou a alça da sua bolsa numa cadeira próxima e foi pra cozinha fazer um café pra nós. Há uns anos iniciei um trabalho de reflexão sobre meus valores humanos e espirituais; estava receoso, mas confiante em “destrancar” algumas portas e me conhecer melhor. Na cidade de Delfos, na Grécia antiga, havia um templo dedicado ao deus Apolo e sobre o portal de entrada tinha uma frase atribuída ao ateniense Sócrates que dizia: “Conhece a ti mesmo"*. Não é fácil se despir das carnes que vestimos, caminhar alguns passos à frente e voltar nossos olhos para nós mesmos, para o nosso mais profundo íntimo, onde não existe "máscaras" e nem o "faz de contas". Lembro que no início eu parecia o advogado de mim mesmo, cheio de palavreados a defender meus erros, justificar minhas ações e com uma mão cheia de dedos acabava tentando transferir para os outros a responsabilidade e os motivos dos meus atos. Não é fácil! Conhecer a si mesmo é como navegar por um mar que se aprofunda quanto mais nos afastamos da praia da rotina segura e hipnótica. Fui por muitos anos um arrogante educado, uma pessoa de janela pequena, de conceitos amarrados, de visão embaçada, musculatura do coração atrofiada, algo meio mesquinho, parado no sinal vermelho das descobertas enquanto a gasolina do tempo não era usada para correr na direção do crescimento pessoal e espititual... Muitas vezes crescemos na dor, o rasgo que expõe a semente sob a terra, é dolorido, a golfada de ar nas asas do primeiro voo, é dolorida, nascer dói, crescer dói também... Eu estava na minha terceira camisa, Isaura entrou na sala com uma bandeja e duas xícaras de café; apoiou sobre a mesa e disse: “Hora do descanso, toma um cafezinho...” Sentei na cadeira próxima e ela na outra em frente. Depois de dois goles em silêncio e ter suspirado os vapores do café, eu disse: “Há muitos anos eu trabalhei numa grande empresa mobiliária no Leblon, certa vez um cliente solicitou um projeto para sua sala. Era um rapaz jovem, moreno, magro, educado, bonito, trabalhava como modelo profissional, me lembra um pouco meu filho mais novo hoje... Isaura olhou para dentro da xícara e deu mais um gole de café sem se manifestar. Fechamos o negócio, o projeto foi entregue e montado em sua casa. Três meses depois recebi um recado que esse rapaz havia ligado para a empresa e pedido que eu fosse a sua casa tirar algumas dúvidas, talvez até um complemento desse projeto. O detalhe do recado era que ele havia desenvolvido uma herpes ocular e tinha ficado cego... Cego? Perguntei surpreso para a recepcionista da loja. "Não pode ser! Não tem nem três meses que estive com ele. Estava bem, havia comprado seu apartamento, estava animado, trabalha como modelo... Como assim ficou cego?!" Minha capacidade espremida de entender os movimentos do Universo não me ajudou muito. Senti medo! Medo de contrair a sua doença, medo do "castigo" que um “deus” maldito e ignorante submeteu aquele rapaz gay. Meus preconceitos escreveram longos textos nas páginas da minha razão, que legitimavam minhas covardias... Virei pedra e disse as pessoas em minha volta: Eu não vou! Nem pensar...” Nisso, uma colega do trabalho que estava próxima e ouviu a conversa, disse: “Tudo bem, Ricardo, deixa que eu vou na casa do seu cliente, tiro as dúvidas dele...” Meus olhos se voltaram para ela como a mira de uma arma, sua disposição em ir até lá denunciou minha covardia para mim mesmo. Fui tomado de grande espanto por essa atitude desprendida, mais do que isso, suas palavras caíram sobre mim como um balde d’água gelada cheio de pedras de gelo... e eram pedras grandes! Nossa! Não era seu cliente, não era assunto seu, ninguém iria cobrá-la por não ir; por que isso? E suas palavras ficaram dançando em minha volta: “...Deixa que eu vou!..." Cai em silêncio e me fechei num constrangimento inconfessável. Ela foi e voltou, não contraiu herpes ocular até hoje e isso foi há mais de 15 anos. Hoje, quando me lembro dessa história, ainda sinto vergonha e arrependimento. Se todos em minha volta tivessem ficado de boca fechada, se o habitual descompromisso que temos uns com os outros tivesse ocorrido como sempre, teria ficado tudo "bem"!! Mas essa mulher resolveu reagir como um sal de frutas na água quente e transbordou dizendo: “...Deixa que eu vou...!” Chamou para si a responsabilidade de fazer o que era certo. Nem lembro do seu nome... Isaura, eu queria pedir perdão aquele rapaz, mas não faço ideia por onde ele anda. Juro que hoje eu teria ido! Juro que não teria sido tão “babaca” tão simplório. Um coração cego... Colocaria minha mão em seu ombro e lhe diria alguma palavra de incentivo. A ignorância é a semente do medo. Na guerra civil americana, perguntaram a uma senhora dona de casa, voluntária como enfermeira num hospital de campanha, porque ela cuidava tão bem dos inimigos feridos e ela respondeu: "São jovens e estão longe de casa, tem a idade dos meus filhos que também estão na guerra. Espero que alguém esteja fazendo por eles o que estou fazendo pelos filhos deles..." Virei o restante da xícara num só gole. Isaura balançou a cabeça concordando, achei que iria dizer alguma coisa, mas não; levantou-se, colocou a cadeira no lugar, recolheu as xícaras e disse apenas: “Continue!” E foi lá pra dentro... Eu desliguei o ferro, joguei a camisa que estava em minhas mãos sobre as outras empilhadas para passar e fui trabalhar.







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28-11-2011



* "CONHECE A TI MESMO E CONHECERÁS TODO O UNIVERSO E OS DEUSES, PORQUE SE O QUE PROCURAS NÃO ACHARES PRIMEIRO DENTRO DE TI MESMO, NÃO ACHARÁS EM LUGAR ALGUM"









sexta-feira, 25 de novembro de 2011

MARCELO ESTÁ CASADO!!...





Sabe do que é feita a maldade da Bruxa do Tempo? Ela enfeitiça as pessoas em nossa volta fazendo-as ver-nos velhos, ainda que nossa imagem não corresponda ao coração quente e jovem que temos no peito.
Ainda que eu me sinta jovem e serelepe, estou com 52 anos... Meus cabelos e do Richard Gere, já não são tão negros, por outro lado, ele tem um charme que eu não tenho. Pena! Estive neste fim de semana em Porto Alegre e tive um domingo diferente e maravilhoso. Fui assistir ao casamento do meu filho Marcelo com a Luciana. Foi muito especial! Um perfume de felicidade e luzes de alegria flutuaram sobre todos nós como bolinhas de sabão enfeitando a festa. Logo no início da cerimônia, para minha surpresa, Marcelo assumiu o teclado, a Luciana o microfone e os dois cantaram canções de amor um para o outro... 

Eu sabia que estava vivendo um momento histórico da minha família, assim como são os casamentos em todas as famílias, um reinício a continuidade. Uma cerimônia de vida festejada por todos os ancestrais que habitam em nós. Naquele momento eu era o representante dessas gerações, e Marcelo, a ponta dessa lança. Ao pensar nisso me senti muito importante. Após algumas palavras do pastor Walter, Marcelo falou emocionado sobre o amor, de como ele produz em abundancia sentido a vida, que o amor a tudo supera, inclusive as distancias. Nesta hora ele olhou para mim e todos olharam para mim! Respirei fundo, não estava esperando. Depois ele falou com muito carinho da Renata, sua irmã, e quando falou de sua mãe chorou. Quando me dei conta estava chorando também por orgulho de ver que tenho um filho que honra seus pais. Será que algum dia meus pais sentiram esse orgulho de mim? Bem... Foi tudo muito bonito. Passamos anos definindo os contornos de nossos filhos, que filmes irão assistir, em que escola vão estudar, como vão cortar seus cabelos, a cor de suas roupas, a marca das fraldas... e lentamente, como gelo derretendo, vamos minguando nessas decisões, deixamos de ser atores principais para nos tornarmos nobres coadjuvantes. Ainda bem, eu não iria querer passar a minha vida trocando as fraldas do Marcelo. 
Vendo os dois no altar, enxerguei a perfeição de como Deus junta as peças quando permitimos que a sua presença sorria para nós. Tive uma sensação estranha, a mesma que senti no casamento da Renata há sete anos, uma forte sensação de que tudo aquilo diante de mim era um sonho, uma viajem ao futuro... Não pode ser que essa criança esteja se casando, acabei de colocá-la na cama, cobrir seu corpinho até o pescoço, viro-me e ele esta no altar e eu de terno.
Sou um pai boboca que ainda pergunta pelos filhos dizendo: "Onde estão as crianças..." Não sei se quero parar de falar assim, ainda que eles não gostem muito... Meus trinta agora fazem parte apenas das fotografias, mas para onde os anos partiram? Hoje de manhã, segunda-feira, peguei o avião de volta com meu espírito voando feliz do lado de fora do avião, parecia uma pipa com a rabiola curta, rodava e rodava no céu... Podem quebrar minhas pernas, mas nunca farão meu espírito manco. Não temos poder sobre a ação do tempo, mas podemos aprender a apreciar as nuances da vida como a beleza que o sol imprime no céu ao longo do dia. A máquina do tempo quebrou e estou preso nesta época. Nunca mais vou ver minhas crianças novamente, ou só vou encontra-las de novo quando meus netos nascerem? Quem sabe...
Desejo que os desejos de meus filhos sejam mais certeiros que os desejos que desejei. Você não desfaz um combinado com Deus, ele foi claro comigo, os filhos não são meus, pertencem a continuidade.  Tudo vai se desenrolando no tempo e na expectativa prevista, eu só não esperava que os anos passassem tão rápido... Deus me abençoou com meus filhos e com suas promessas, só posso agradecer. 

Felicidades Marcelo e Luciana.


Ricardo Cacilias
25-11-2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MULHER, SEU DESTINO É O AMOR...

Olá amigo dos meus textos noturnos. Estou perdendo as minhas digitais... Não é uma imagem filosófica da busca da identidade... De tanto lavar roupa a pele dos meus dedos está ficando bem fina... Tenho um note HP que acesso pela leitura digital de meu polegar, simplesmente ele não me reconhece mais... Estou me especializando em manter a casa um “brinco”, gosto de ver as coisas no seu lugar, limpas e organizadas. Estou passando roupa que é uma maravilha. Passo primeiro as mangas compridas e depois o colarinho, então passo a parte mais fácil... Fico igual a um idiota dizendo para as pessoas, “fui eu que passei essa camisa...” Comprei uma capa nova para a tábua de passar, a antiga tinha um buraco onde se apóia o ferro, feito pela antiga empregada. Faço lista de compras, vou ao supermercado, peço opinião às senhoras ao meu lado sobre qual produto é melhor do que aquele... Na cozinha estou procurando dar mais sabor aos meus pratos. Eu tinha um fogão de 4 bocas comprado no século XX, joguei fora e comprei um todo de aço com 5 bocas... o “bichinho” só falta dizer bom dia... Ao fim do dia, cansado, gosto de entrar no meu quarto com cara de "quarto de hotel"; cama feita, tudo esticado, travesseiros fofos e fronhas limpas... Gosto de lençol frio, só compro lençóis de 200 fios para cima, é um dinheiro muito bem investido! Eu queria provar a mim mesmo que não era apenas um porco chauvinista, que havia brechas humanas no meu comportamento e que qualquer terra seca pode ser florida se receber as sementes certas e a água da chuva. Estou numa separação lenta e dolorida da minha barriga... É duro, após tantos anos, saber que nossa relação não poderá crescer como antes... Estou fazendo dieta e exercícios! Estava há algumas semanas pesando 91 quilos e 700 gramas. Hoje estou com 87 quilos e duzentas gramas, são 4 quilos e meio a menos, e a saga continua... Quero chegar ao peso que estava em 1991, 80 quilos. Neste momento meu relógio marca 01h 35 da manhã de segunda-feira do dia 14 de novembro do ano do senhor de 2011. Minha máquina de lavar roupa começou a centrifugar, parece um carro cheio de vidro capotando ladeira a baixo, larguei o teclado e fui me abraçar à máquina para não fazer tanto barulho e acordar todo o bairro de Humaitá... As madrugadas exercem um poder superlativo aos meus sentimentos, sinto falta de uma mulher ao meu lado... Talvez, meu amigo, você tenha pensado que sinto falta é de uma funcionária para fazer as coisas que relatei antes... Não! Posso te assegurar que não! Este vaso cheio de testosterona precisa de uma flor feminina para ser germinada, sem isso a vida fica sem gosto, sem perfume, sem propósito, parece que não vai dar em nada... Se o sexo fosse à grande questão, qualquer “prima” me deixaria satisfeito e por um preço muito menor e sem o risco de uma pensão; em verdade vos digo, é na companhia de uma mulher que um homem encontra a sua plenitude – o seu êxtase! Tenho certeza de que não existe pele mais macia e saliva mais doce do que o de uma mulher; de que nada é mais sedutor que suas curvas e que nas duras horas das adversidades, seu colo e o perfume do seu sexo é a sagrada mistura da paz e da coragem. A mulher pensa, fala, enxerga e interpreta o mundo de uma maneira única e sem acesso ao homem. Estar sem o convívio de uma mulher é ficar longe desse conhecimento. Apesar do mundo estar dominado pelo poder e pelo trabalho da mulher, me trás grande prazer me sentir seu protetor, adulador e enamorado. Minhas palavras, sem originalidade, repetem o óbvio, não existe comunhão sem a mulher e não existe vida sem a mulher... Como um homem de origem no século XX acredito que nada substitui o amor, na verdade, após ele, tudo nos é acrescentado... Era para ser uma introdução de outro texto, mas ganhou vida própria e saiu do meu controle... O outro texto sai outro dia... Fico então despido de justificativas, de argumentações, de conceitos eruditos; de maneira simplória e telúrica afirmo... Sem mulher eu não existo!!! 

sábado, 5 de novembro de 2011

A PRIMAVERA DO PERDÃO...

Boa Noite amigo, a muito contragosto devo admitir que já passei da metade da minha vida, estou no segundo tempo e com alguns gols perdidos, talvez alguns dribles bacanas, mais nada que me fizesse dizer : Nossa que jogão!!Tenho vivido de veias abertas e na quarta marcha desse bate estacas chamado vida. Isso me faz lembrar da magistral cena de Charlie Chaplin no filme “Tempos Modernos” em que ele está numa esteira de produção, desesperado Tentando apertar as porcas das peças que vão passando cada vez mais rapidamente.
(trecho deste filme no final do texto) Não tenho tantas mãos e tantos braços para deixar impecável e sem rugas o resumo de cada dia... Sempre haverá um meio sorriso querendo ser grande
ou uma situação que poderia ter sido melhor escrita... Mas a carroça trilha seu rumo... Meu filho número 2 vai casar esse  mês, Marcelo. Senti que ele ficou meio enciumado, pois tenho vez por outro mencionado mais o Felipe e a Renata... O que você espera que eu diga dele? Ele é especialmente maravilhoso. Um
baita músico talentoso, dedica-se a trabalhos sociais em  comunidades carentes de Porto Alegre, destaca-se na empresa em que trabalha pelo seu excelente profissionalismo... Marcelo tem 20% do meu jeito, o restante ele foi cavando e encontrando seus contornos. É um loirão alto e muito mais bonito do que eu. Quando estive em Porto Alegre em março deste ano no seu noivado, presenciei um encontro mágico de duas famílias, parecia um filme, tudo transcorreu como se todos 
estivessem ensaiado o que iriam fazer e dizer; uma noite inesquecível recheada de esperanças e de expectativas – é disso que é feito o início da relação de um casal: ESPERANÇAS E EXPECTATIVAS... Sua noiva se chama Luciana, uma linda moça tanto aos olhos quanto ao coração. Eles são duas peças de um grande quebra-cabeça que se encaixam quase em perfeição, complementando-se e dando sentido as imagens ao seu redor. É com muito prazer que eu, o mais velhos dos Cacilias, recebo a benção
dessa mais nova integrante do time. Marcelo tem 25 anos. Eu sempre tive um sentimento de dívida com ele, assim como tenho com a Renata, mas com ele era uma dívida mais ardida... Nossa relação sempre foi misturada de altos e baixos. Quando ele fez 19 anos eu o chamei para morar comigo, mas por falta de concentração e de empenho da minha parte, não deu muito certo... Não é fácil reacende uma fogueira, as vezes o solo em baixo está meio úmido 
do sereno da noite... Depois por uma rápida temporada na casa da minha mãe ele se mudou para São Paulo onde ficou por um ano. Na terra da Rua Ipiranga com a Av. São João, viveu um processo de pasteurização, quando o leite é fervido e depois rapidamente desce a baixa temperatura... Todas essas chacoalhadas cristalizaram o caminho do seu amadurecimento. Ele saiu do Sul como um adolescente orgulho e enganado em ter uma majestade que não possuía... Anos depois voltou para Porto Alegre com a 
mala cheia de experiências e os pés sujos de terra. Voltou um homem adulto, responsável e pronto para assumir o seu futuro. Ele tinha apenas 2 anos quando me separei da sua mãe... Quando somos jovens encaramos o mural dos acontecimentos sem a plenitude da devida carga de emoção e da gravidade que elas possuem; hoje maduro e reflexivo, visualizo preocupado atitudes do passado que caem como pedras sobre meus ombros... Num dos e-mails que eu troquei com Marcelo recentemente, disse a ele 
 como deve ter sido difícil o “dia dos pais”, “natal”... e principalmente o dia mais importante do ano, o dia do cotidiano; pois são nesses dias em que as coisas mais importantes da nossa vida acontecem... Mas eu não estava lá!... Tenho feito desse espaço a minha tribuna, o meu lavar de roupa suja. Não posso deixar essa vida sem expor falhas de percurso que me alfinetam e me incomodam. A mãe deles nunca poupou nobreza em suas palavras quando eu era o assunto, sempre exortava nossos 
filhos ao respeito e a admiração por um pai que não foi exatamente um modelo e uma premissa... O que me amedronta? O julgamento de Deus? Das pessoas? Dos filhos? Tenho medo é da minha consciência, da sua falta de misericórdia e das suas visitas inesperadas; do tapa que as vezes levo quando estou dirigindo, do sussurrar assustador no meio da noite, da sensação de estar sendo observado enquanto espero o  elevador... Marcelo, com exceção da Renata, não lê mês textos; lerá um dia numa
natural busca ao entendimento 
do seu gênesis... Então lanço mão da internet e da sua capacidade de guardar por muitos anos as informações que recolhe. Informações que sobreviverão aos meus dias. Sempre haverá uma chance a primavera do perdão. Penso até que já o tenho deles dois, resta eu mesmo me conceder o mesmo. Dia 20 de novembro Marcelo assumirá a sua parte na continuidade, seu casamento proverá outros Cacilias e a lei da vida prevalece novamente. Ainda que numa parcela ridícula, sinto um dever realizado... Mas o mérito cabe a sua mãe. Tere é uma mãe na medida certa e acima de tudo uma mulher que superou suas diversidades...
Obrigado por me ouvir, amigo. Seja feliz!

Ricardo

                                      TRECHO DO FILME "TEMPOS MODERNOS"
                               ESCRITO E DIRIGIDO POR CHARLIE CHAPLIN - 1936