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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A FALECIDA DO 1008




Em 1982 eu morava no Rio Grande do Sul e minha família no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, na Rua Conde de Bonfim, ap. 1007. Da nossa janela tínhamos uma linda vista do morro do Sumaré, onde ficam as antenas  
retransmissoras de rádio e televisão. Um dia o carteiro me trouxe uma carta do meu pai com uma história muito engraçada, que mais tarde ele me confirmaria ser tudo verdade, palavra por palavra. Minha irmã Vânia desde sempre adora gatos, deve ter tido até hoje mais de cinquenta, com um detalhe, todos se chamaram "Mimi". Nós tínhamos uma vizinha, dona Jurema, vizinha de porta, moradora do 1008. D. Jurema adorava gatos também, com isso, de vez em quando, ela e Vânia trocavam informações e fitinhas coloridas para enfeitar seus bichanos. D. Jurema já tinha mais de 60 anos e certa vez comentou com minha irmã que todos os dias  
precisava tomar um determinado remédio efervescente para o coração. O remédio era tão importante, que se ela se esquecesse de tomar uma única vez, sentia pressão no peito, palpitações e cansaço. Minha irmã, muito jovem, ficou impressionada com isso e contou à minha mãe. Naquele tempo não existia Facebook, internet, computador e os adolescentes arranjavam outras coisas para fazer e preencher suas tardes depois da aula. Meu irmão Roberto, nessa época com 19 anos, por exemplo, gostava de mixar música, gravar do disco de vinil para a fita K-7, às vezes alterava a rotação, juntava uma música na outra, coisas dos anos 80... Numa tarde de setembro, meu irmão estava no quarto mudando a velocidade de uma música do grupo australiano AC/DC. Nessa música havia um determinado trecho da letra em  
que o vocalista Brian Johnson entoava três vezes o pronome "EU", mas em inglês, é claro: "Ai! Ai! Ai!" Por motivos desconhecidos, Roberto foi diminuindo a rotação da música exatamente nesta passagem deixando o "Ai! Ai! Ai!" cada vez mais triste e cavernooooso. Enquanto ele se divertia com isso, do outro lado da parede, minha irmã estava na sala vendo TV. Derrepente ela parou o que estava fazendo e levantou as sobrancelhas, atônita com aquele som suplicoso, aquele lamento cheio de dor: "Aiii... Aiii... Aiii..." Seu rosto foi ficando comprido e a boca foi se abrindo, levantou-se rapidamente e foi de olhos arregalados procurar minha mãe que preparava o almoço. Ao chegar na porta da cozinha, ela disse aflita: "Mãe... mãe, d. Jurema está passando mal, não está ouvindo? Ela deve ter se esquecido de tomar o remédio do coração!" Ao contrário de minha mãe questionar tão prematura conclusão, ela acabou se aliando às fantasias da minha irmã e rapidamente preencheu as lacunas em branco: "Meu Deus e agora? Ela deve estar aí no corredor se arrastando até aqui para pedir ajuda!!!" Vânia ficou branca como a cera de vela, correu até a porta da sala e enfiou o olho no visor da porta. Minha mãe perguntou aflita, enxugando as mãos no pano de prato: "Tá vendo alguma coisa?" Antes que a Vânia respondesse, Roberto, lá do quarto, distorcia ainda mais a música, fazendo com que o som do AC/DC parecesse os últimos momentos de vida da d. Jurema, agonizante, espumante, com uma das mãos no peito e a outra esticada em direção à porta da nossa sala, clamante de socorro... As duas tontas se olharam e tiveram a mesma reação, encostaram seus ouvidos na porta: "Tá ouvindo alguma coisa, Vânia?" Minha mãe perguntou. A imaginação já era a dona da festa e surpreendentemente Vânia respondeu: "Ela tá dizendo o meu nome..." E começou a produzir as primeiras lágrimas. Minha mãe falou: "Abre a porta, filha!" Vânia não teve coragem de enfrentar tão terrível visão dos últimos momentos de vida da d. Jurema, ali caída, roxinha, possivelmente com seu corpo envolto a gatos assustados... Minha mãe olhou no visor da porta e não viu nada, minha
irmã falou em lágrimas: "Claro que não dá para ver nada, mãe, ela está caída no chão agonizando..." Minha mãe correu para chamar meu irmão: "Roberto, vem ajudar, d. Jurema está morrendo na nossa porta, ela não tomou o remédio!" Roberto desligou o toca-disco e o gravador, abriu a porta do quarto tremendo e, apesar de todos os poderes de Glasgow, do He-Man, entrou em pânico. Só conseguia gritar, gesticulando freneticamente os braços: "Liga pro porteiro, chama o síndico, chama a polícia..." Minha mãe, com o ouvido colado na porta novamente, ergueu a mão pedindo silêncio: "Cala a boca, não estou ouvindo mais nada..." Enquanto seus olhos balançavam de um lado para o outro, como se estivessem ouvindo também através da porta, subitamente olhou para meus irmãos emocionada e disse solenemente: "Ela acaba de falecer! Que droga, na minha porta!!!" Vânia cobriu o rosto com as mãos e chorou. Roberto de pernas trêmulas, ainda perguntou: "O que ela dizia antes de morrer?" As duas, como se ensaiadas estivessem, responderam juntas a mesma frase: "Aaaiii, Aaaiii, Aaaiii..." Roberto riu alto, nervosamente, o que deixou Vânia e minha mãe chocadas por tão terrível falta de respeito à falecida. Ele chamou as duas relutantes até o seu quarto e ligou o gravador. O som que elas escutaram pareceu muito familiar: "AAaaiiii, AAaaiii, AAaaiii..." Diante das duas de boca aberta ele perguntou: "Era isso que vocês estavam ouvindo???" Minha mãe rapidamente apontou o dedo para minha irmã e disse: "Foi ela quem disse que a dona Jurema estava morrendo..." Minha irmã furiosa falou entre os dentes: "Você também ouviu ela gemer..." Finalmente minha mãe foi até a sala, abriu a porta e encontrou o chão vazio, não tinha nada, nem gato, nem d. Jurema, nem uma mortinha se quer... Naquela noite meu pai me escreveu uma carta contando a história da falecida do 1008 e dos três patetas, parando vez por outra para rir muito.


Ricardo Cacilias
02-09-2011


terça-feira, 30 de agosto de 2011

AS DEZ COISAS...

Oi. Cá estamos de novo... 
FRANK SINATRA
Estou me acostumando com suas visitas a este velho olhos azuis; não tão bonitos quantos os de dona Malvina ou do Frank Sinatra... Mas agradecidos por sua insistência...
Sonhos são sonhos, pesadelos são pesadelos e amnésia é outra coisa...
Gostaria de te contar sobre alguns sonhos que tenho guardado como diamantes numa sacolinha, no fundo da segunda gaveta do meu coração. Alguns sonhos cultivo a tanto tempo que estão com as folhas meio amareladas, precisando de uma boa chuva de verão... Tenho sonhos que são apenas meus e outros que foram sonhados juntos com a ex-senhora B; sonhos que receberam nomes como damos aos filhos quando nascem, sonhos que viraram planos eternos adiados por falta de tempo ou dinheiro ou falta de tesão para realizá-los. Quando o fim de semana chega estou tão cansado, que me falta aquela explosão de pegar a vida pelos ombros e dar uma forte sacudidela e dizer: "Epa! Qual é?... Tá maluca? Só cobra, cobra... e EU? Porra!!!" Existem na internet alguns sites com o título: "100 Coisas Para se fazer Antes de Morrer..." Como sou um suburbano caipira, tenho a minha própria lista, mas ela só tem 10 Coisas Que Desejo Fazer antes de Morrer... É claro que existem variações que se desdobram dentro de cada item. Os desdobramentos acabam se somando a outros e como numa reação em cadeia, realizando a maioria dessas 10 coisas, acabarei por fim em acreditar que não vim a esse mundo apenas para trabalhar, pagar conta, comer, fazer coco e dormir... "Ai, ele falou em coco, que bárbaro!!..." Mas todos nós não fazemos coco todo dia? Se não acontece isso contigo, é melhor procurar ajuda... Voltando a minha lista, gostaria que você, meu leitor, pensasse na sua própria lista. Tenha ao menos um esboço do que você realmente gostaria de fazer se não tivesse preso as teias da rotina; tenha a liberdade de pensar, de ousar, de se presentear, tenha a liberdade de se amar, de se respeitar e acreditar que você pode - "Yes We Can!!" Onde já ouvi isso antes??? Apesar de você ser um amigo de texto, ingrato, não me manda uma carta, um e-mail, um comentário... Vou abrir a segunda gaveta do meu coração e te dizer quais são as 10 coisas que quero fazer antes de sair de cena...

NÚMERO UM: Voltar a pintar... 
(Já pintei algumas telas, menos do que estavam prontas aqui dentro para virar tinta. A maioria delas seguiu rumo próprio... Assim como escrever, pintar para mim é uma deliciosa forma de expressão, um pensamento feito de tinta, uma emoção impressa...)
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NÚMERO DOIS: Aprender a tocar um instrumento...
(Adoraria tocar um piano, um violão, um sax, uma guitarra. Eu tenho um violão encostado na parede há 29 anos... Olha, eu tenho um filho músico, o númeno dois, Marcelo Cacilias, é de emocionar a sua capacidade de mistura os sonhos e os ritmos ao ponto de fazerem sentido ao próprio espírito... te amo filho...)

NÚMERO TRÊS: Ter um cão Labrador...
(Foram 52 anos querendo um cão de verdade, amigão, sei lá... nunca tive um cão para dizer que era só meu... Eu gosto do labrador porque é grande, tem pelo curto e cara de inteligente.) 

NÚMERO QUATRO: 
Aprender uma língua estrangeira... 
(Todo mundo estudou inglês na escola...e nós, a maioria, na frente de um americano, inglês, alemão, japonês, não soltamos um verbo em inglês... É muito deprimente estar na internet e sentir-se um analfabeto. Gostaria de dar um basta nisso...)



NÚMERO CINCO: Ser um doador de sangue...
(É com sentimento de vergonha que digo que nunca doei sangue... Durante anos escutei apelos feitos por instituições de saúde pedindo que doe sangue "um ato de amor". Nunca fui. É muito fácil estar dentro de uma igreja e dizer que ama o seu "próximo"; muitas vezes dizer amar ao próximo é apenas uma frase repetida vulgarmente, como "bom dia"... As vezes amamos a determinados "próximos" como o indivíduo que está do seu lado sentado no banco da igreja, os membros da sua família... Doar uma parte que te pertence sem troca de dinheiro, sem conhecer a quem será beneficiado, fazer com que a frase "ame ao seu próximo" se materialize, fará de mim uma pessoa melhor e mais próxima de Deus.)  

NÚMERO SEIS: Ensinar um analfabeto a ler...
Eu não ensinei a nenhum dos meus 4 filhos a ler. Isso ficou a cargo da escola, no seu tempo certo e na sequencia corriqueira da vida. Mas um adulto que não sabe ler, é uma pessoa que enxerga a  sua própria cegueira... Quero ser parteiro de uma vida desperdiçada, quero saborear o momento que algumas letras fizerem sentido para alguém pelo meu intermédio. Além de achar que isso será bom para um ser humano, além de achar que vou contar uns pontinhos com Deus, além de estar exercendo meu papel como cidadão brasileiro, isso vai me dar um êxtase de satisfação e vou me sentir uma pessoa melhor por isso. É uma forma elegante de entrar na vida de alguém e jamais ser esquecido.)
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NÚMERO SETE: Fazer mais amigos...
(Tenho muito poucos amigos, talvez eu tenha mais do que realmente percebo. Quero dar mais crédito a sensação de que aquela pessoa gosta de mim e daí germinar uma boa amizade. Quero visualizar melhor meus amigos, quero me reunir com eles em intervalos menores, com calma saborear suas presenças, crescer com seus ensinamentos, ouvir suas estórias. Eu tenho um amigo de adolescência chamado Júlio, não o vejo a muitos e muitos anos, mas nunca perdi a sensação de que ele é um grande amigo. Preciso ligar para ele... 
  
NÚMERO OITO: Viajar para a Europa e conhecer as cidades que vejo nos filmes. Portugal, Itália, Grécia, Alemanha, Espanha...
(Preciso dizer mais alguma coisa? Viajar, conhecer lugares, pessoas, seus valores, sua comida, seus ícones... Vai ser muito bom! Acima de ser brasileiro e sul-americano, eu sou um cidadão do mundo; preciso conhecer melhor esse planeta, seus mares, suas terras...)


NÚMERO NOVE: Recompor a minha família...
(A minha lista não é sequencial, mas tenho alguns itens mais importantes do que outros. Eu não sou auto-suficiente, eu não me basto, não tenho a capacidade de interpretar sozinho os perigos que adivinharão, não consigo me divertir sozinho, não consigo sonhar sozinho. O conceito de família é capenga e cheio de falhas, mas não inventaram nada nada melhor do que isso.)

NÚMERO DEZ: Transar com a Sharon Stone...
(Sharon, hello, how are you??? Será que ela gosta de latinos???... Ela é linda, talentosa e inteligente. Será que vai dar??? Call me, my love...
Esclarecendo: Primeiro eu transo com a Sharon, depois eu recomponho a minha família. Homem não vale nada...)
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De todos os sonhos justos, abstratos ou infantis... o que mais desejo que seja realizado é a restituição do corpo partido do meu casamento, sem a qual nenhum outro sonho será glorificado, nenhuma vida poderá ser chamada de verdadeira. Não tenho vergonha de dizer que amo. E por esse amor vou procurar ser alguém melhor. Chega, você deve estar com sono de tanto blá, blá, blá... Até amanhã.
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Ricardo Cacilias

A ROSA DE SARON

Veio hoje de novo? 
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Você está realmente ai?
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Ainda não me acostumei com a magia de falar tão intima e abertamente com uma pessoa que não conheço. Na minha adolescência, computador era chamado de “Cérebro Eletrônico”. Quando escrevíamos um texto na máquina de escrever e errava, não havia editor de texto, tínhamos que ficar segurando uma fita com um pozinho branco e você batia de novo a letra errada entre o tipo da máquina e o papel, para que o pozinho fosse transferido para o papel e cobrisse a tinta da letra errada e depois você voltava e batia a letra certa.... Ficava uma cagada só, mas para o padrão da época era aceitável. Cansei só de lembrar... Sou ainda muito caipira para assimilar de maneira absoluta e abrangente essa ficção científica de estar num quartinho nos fundos do meu apartamento, que batizei de “O refúgio do Guerreiro”, escrevendo minhas bobagens e alguém, sei lá quem, e sei lá onde, também no seu próprio refúgio, acompanhando meus textos, no dia seguintes ou muitos dias depois de tê-los escrito.... Por isso pergunto se você está mesmo ai? Conforta-me acreditar que sim. Apesar de que, no fundo, sinto que falo apenas comigo mesmo... Já que somos amigos de textos, vou contar uma confidência: a senhora B não está morando mais comigo. Está há mais de duas semanas na casa da mãe dela. Tenho dito aqui e ali que ela viajou... Viajou porra nenhuma... Fez uma pequena maleta e levou, além de alguns pertences, essências tão saborosas quanto absolutas da minha vida, moldadas nas alegrias e frustrações geradas no dia-a-dia desses 25 anos de convivência... Cara está doendo mais do que pisada em unha encravada! Por isso peço desculpas para você, não estou sendo uma boa companhia de bate-papo... Um dia você acorda e o eixo do seu mundo rotacionou 180o, o que antes era teto agora é chão e vice-versa. Sejamos francos, todos os dias acordamos querendo que o equilíbrio das coisas que acreditamos e das coisas que conquistamos não se rompa, pois as instruções de como devemos proceder em caso de pane em pleno voo, não constam no nosso diário de bordo... Na verdade a nossa grande expectativa secreta é que as mudanças sejam apenas singelas, adocicadas, capengas, serenas, frágeis e que não nos deixe descobertos a pontos de termos que romper a nossa casca e brotar suco de nossos paradigmas. A rotina é confortável, tão maldita por nós, mas ela é muito confortável e previsível. Na maior parte do tempo estamos mais preocupados em tentar garantir aquele de sempre sobre a mesa, aquela prateleira meio cheia da geladeira, aquele mínimo necessário para sanar as dívidas dentro do prazo, aquela nossa convicção que doença só acontece na casa do vizinho... Aturamos o patrão, aturamos o gerente, aturamos os clientes, aturamos o nosso trabalho sabendo que existem bilhões de coisas maravilhosas para se ver e conhecer neste mundo, mas que para nós, cada vez mais, só existem nas telas do cinema ou nas revistas... Acabamos por nos contentar em visitar Caxambu uma vez por ano ou qualquer outra coisa por ai... Exibimos aos colegas do trabalho as mesmas fotos das mesmas férias que tem se repetido todos esses anos... E ainda ficamos felizes de poder ao menos realizar essa extravagância... E acima de tudo, aquela nossa estúpida convicção de que existe um deus moldado a nossa imagem e conveniência, interpretado conforme nossas necessidades e frustrações; não o Deus real, não o verdadeiro, o magnânimo, o perfeito, a Rosa de Saron, mas aquele deus que secretamente achamos ser meio cego, que não vê com clareza nossos vacilos, que tem péssima memória sobre nossas mentiras, sobre os deslizes que cometemos... deus superbonder comprado no mercado para restaurar as pontas quebradas que vão surgindo... 

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Será?
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Eu avisei, hoje não estou uma boa companhia para bate-papo. Sozinho neste apartamento grande e dormindo numa cama vazia, me falta vontade de ser falso contigo... Se a alma fosse constituída de células, sinto que cada uma delas estaria sendo espremida como aquelas espinhas que tínhamos quando achávamos que o Mundo nos pertencia...
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Já passa da meia noite. 
Até amanhã, ou como dizem nas viagens de avião do corujão: Bom dia.
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Ricardo Cacilias

sábado, 27 de agosto de 2011

O ENGANO DE DEUS...





Eu devo estar ficando muito velho ou muito louco, pior, eu devo estar ficando muito velho e muito louco... Acordei esta manhã de sábado com saudade de choro de criança... Eu sabia que acabaria assim, um velho babão procurando fantasmas! Cá pra nós, esta é a falha do plano de Deus. Quando somos jovens e escovamos os dentes com a pasta da vitalidade, tomamos banho com o sabonete da empolgação, nos vestimos com a roupa do entusiasmo e nossos olhos são feitas de determinação; é nesse tempo que temos filhos. Mal comparando, é como você ir a uma churrascaria e ter feito antes um grande lanche... Parece que à hora de sermos pai, não é hora de saborearmos essa benção, parece que o tempo tem minutos a menos e não podemos ser absolutos em lidar com o milagre da vida... Somos miupes achando que vamos viver mil anos... MIL ANOS!!! Da mesma forma que um jovem sem filhos não entende a dimensão da paternidade nas suas cores e nuances, creio que eu ainda não alcancei a compreensão da ideia de ser avô. Acho que estou falando um monte de bobagens... Tenho estado sozinho nesse apartamento enorme
a tanto tempo que  começo a falar em pensamento comigo mesmo. Tenho me cobrado por não ter sido um filho mil vezes melhor do que consegui ser, um marido mil vezes melhor que a Beatriz e a Terezinha mereciam ter tido e um pai um milhão de vezes mais presente e mais intenso que meus filhos precisaram... Eu poderia ter feito uma vida mais caprichada, sem garranchos ou textos inteiros escritos por cima de outros textos. Ontem a noite, vendo TV, vi meu filho de dois anos entrar correndo na sala com aquele sorriso em sua cara gordinha, que só ele sabia fazer. Sumiu quando pensei em estender meus braços para abraça-lo. Estou ficando louco, de saudade, de remorsos... Às vezes no meio da noite escuto minha ex-mulher respirando ao meu lado, mas ao vira-me, vejo apenas seu travesseiro sem rugas, esticado... De que tempo e dimensão proliferam esses vultos, são lembranças do que passou? São projeções de fantasmas que nascem do meu estéril poder de NÃO poder fazer a rotação do Sol retroceder? Visões espirituais, visões emocionais ou simples lembranças... Velho, muito velho e muito louco, a vida está batendo forte com sua vara de marmelo em minhas costas... Deveríamos traçar a luta pela vida, as batalhas, as conquistas enquanto somos jovens e depois dos 40, com dinheiro no bolso, estabilizados, seguros, mais sábios e mais vividos, aí sim, viriam os filhos...  Dessa forma eu não teria fantasmas cobrando suas promissórias nas esquinas de minhas lembranças. Será que sou mais sabido do que Deus? Acho que não, mas o que estou falando, para mim, faz muito sentido...   
Hoje conheço mais estórias para contar e toda a paciência do mundo para isso do que quando tinha 25, 30 anos.... Hoje entendo melhor os medos das crianças e suas expectativas de proteção e amor... Hoje meus minutos valem ouro, quando tive momentos em minha vida que nem sabia que eles tinham algum valor... Hoje eu entendo tantas coisas que o ignorante de mim mesmo, anos atrás, não tinha espaço para entender... Tudo bem, sei que Deus está certo e eu estou errado, preciso viver mais e ser um pouco mais sábio para entender melhor os planos do meu criador.  
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Perdão Deus!
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Ricardo Cacilias
    27-08-2011


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Recebi a pouco a notícia de que o Sr. Steve Jobs não está mais a frente do comando da Apple, por causa de sérios problemas de saúde. Criador do sistema operacional Macintosh, fundador da Apple e do Centro Cinematográfico digital Pixar Animation, criador do primeiro filme animado Toy Story e outros como Procurando Nemo, Ratatouille,... Criador do iPod, iPhones, etc... Lamento profundamente que uma mente tão criativa esteja sendo abatida com o câncer, coisa que muita gente que merecia passar por isso dedica-se de sobre maneira a corrupção no governo e a roubar os valores que os impostos nos tomam... Separei um vídeo extremamente motivador, e gostaria de dividir minhas impressões com vocês.
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Formatura da University de Stanford em 2005, por Steve Jobs. 

 Vale a pena assistir até o fim.
  É só clicar na seta

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MOHAMED, FUI DEMITIDO!!!!



Mohamed
Recebi hoje cedo um relatório dos acessos ao meu blog, e fiquei surpreso, pois tem gente de outros lugares do mundo perdendo o seu tempo em me contemplar com suas visitas...
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Gostaria de agradecer aos 572 acessos, sendo 469 de brasileiros, 76 acessos dos Estados Unidos, 22 acessos dos meus amigos alemães, 2 acessos da Inglaterra que desconfio terem sidos feitos pela rainha e 1 acesso de um amigo do Paquistão?!? Mais exatamente da República Islâmica do Paquistão اسلامی جمہوریۂ پاکستان.
Fiquei tão orgulhoso de um cidadão do Paquistão ter lido o meu blog, que resolvi escrever um especialmente ao meu amigo Mohamed... 

MOHAMED, FUI DEMITIDO!!!
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A fila anda Mohamed e novos rumos me conduzem para o amanhã... Meu voo sobre essa vida está passando por turbulências, as mudanças fazem parte da estrutura do mundo físico e espiritual. Nem as rochas magmáticas de vulcões extintos há milhões de anos escapam de mutações, imagine eu um mero 'cara' não sofrer  transformações... Levei um pé na bunda e ainda tive que ouvir: "não é pessoal, são negócios..." Foram 11 anos ou 4.015 dias, ou 96.360 horas... Oficialmente fui demitido na segunda-feira dia 22 de agosto, e nesta próxima segunda-feira, 29 de agosto, re-começo a trabalhar numa empresa onde já trabalhei por  8 anos. Acabei de escrever e enviar um e-mail de despedia a centenas de ex-colegas que agora fazem parte da minha história: 
"Antes que apaguem meu endereço institucional de e-mail, gostaria de enviar essa última mensagem. Um ser humano é a conjunção da seguinte trindade: Corpo, espírito e conhecimento. Meu corpo é o resultado de meus pais, meu espírito pertence ao meu Deus - e a ele retornará; e meus conhecimentos são as pedras colhidas no transcorrer da vida que se transformam na matéria-prima na composição de novas estradas. É onde vocês entram neste caleidoscópio vivo que compõe a minha vida. Tive o privilégio de conviver com suas experiências, a maneira como atuavam em seus trabalhos, e mesmo entre alguns colegas saboreei momentos de amizade sincera e edificante. O convívio diário, cada conselho, cada gesto e olhar amigo fincaram gestativos em minha pessoa, pois se nunca mais nos vermos, cada um de vocês sempre estarão comigo em minhas lembranças e em meu respeito. Será difícil estender a mão e dizer um sincero obrigado a cada funcionário membro desta família, mas esse é o sentimento que me empolga; admitir o quanto foi maravilhoso fazer parte deste corpo. Saio melhor do que entrei, esta empresa fez de mim uma pessoa melhor, um profissional melhor e ainda me pagavam por isso. Obrigado indistintamente a todos, desde aquele que catava o papel no fim do dia aos donos da empresa. Privilégio se paga com gratidão e espero nunca me esquecer disso.
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Muito Obrigado
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Que deus nos abençoe.
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Ricardo Cacilias"

Lembranças atos,  descuidos, heroísmos; um dia todos nós seremos apenas um punhado de pó. Que seja ao menos pó de ouro... Essa foi para você meu amigo paquistanês.


from Brazil 
Ricardo Cacilias
       26-08-2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ATÉ QUANDO?

Até quando erguerei meu rosto a lembrar saudoso dos tempos da escolha?
Esqueço-me continuamente a respeitar os resquícios de minha pessoa...
Desses punhados, restante e calcinados, 
Ofereço-te em sacrifico diante de olhos negados.
Arrepio-me quando a lança dos teus olhos buscam o alvo do meu peito.
Nada de nomes, somemos apenas nossas certezas...
Assim vacilante, de espada tremula e vontade reduzida,
Cambaleio ferido nesta luta em conquistar-te absoluta.
Combate sem vitorias entregue a sua prepotência e valentia.
Dos meus dignos conceitos, restam-me o sonho de polinizar-te novamente.
Ver nascer da tua boca um som de amor, 
Fragmentos de palavras que nada sabem sobre a dor.
Ver teu corpo tremer como num intenso frio, 
Apesar de fumegar nas chamas deste vazio.  
Ainda terei visão para acompanhar tua mão 
Buscando um consolo aguerrido e pulsante, 
Preso abaixo de meu peito a te espetar amante.
Buscar no teu profundo a dádiva de gozar em teu mundo.
Das certezas altivas que me transpunham,
Restou-me farrapos, cores desbotadas, etiquetas já sem nomes...
Tenho apenas olhos escravos do teu movimento.
É na tua boca que encontro meu alimento!
É do teu hálito que encho meu peito!
É no toque do teu corpo que faço deste meu áspero 
A mão suave como a face de um nascido...
E na procura do entendimento desse meu caminho, 
Pergunto-me em qual alameda me distancio?
Em que beco me escondo, onde seguirei sem o teu encontro?
Tenho percebido aflito os passos destas pegadas, 
Pois quando vou, desejo voltar...
E quando em regresso, desprendo-me a partir.
São as malvadezas deste amor que perfuram minhas mãos
No doloroso som de metal de um martelo bandido.
Sobre cada mão um prego esquecido,
Cravado de prazer por te querer, 
Sangrando no desespero por não te ter!
A lembrança do teu cheiro me enrijece até a alma, 
Mas em nuvem se transforma,
Pois meus braços curtos não te tocam. 
Uso das lembranças instrumentos de prazer...
Às vezes faço de minhas mãos tua abertura pulsante e aquecida,
E nem sei por quantas vezes tive entre meus dedos, 
O mel que te ofertava com alegria.
Nada sei e pouco espero, pois o amanhã é cativo aos que não se negam.
Quis o destino me dar um amor não correspondido.
Deposito meus dias no solo desta guia, acreditando que um dia tuas pegadas
Vão registrar teu regresso a minha vida.


Ricardo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

__ E.F.M.A. __

Como eu disse uma vez, minha língua normalmente mede meio metro, mas às vezes chega até os meus pés... Meu emprego é Consultor de Projetos. Eu trabalho numa grande empresa do ramo mobiliário, num shopping do Leblon há 11 anos... Às vezes recebo pessoas em nossa loja de exposição que fica no terceiro andar. Tem semanas que estou tão abarrotado de projetos que os fios da minha cabeça viram um miojo lamem... Foi numa dessas semanas insanas que funcionou meus poderes extra-sensorias capacitores de análise profundo de meus clientes... São esses capacitores que reagem com um estridente apito interior quando o espectrograma diagnostica o famoso: EFMA = Elemento a sua Frente não Merece Atenção...
Philippe Pinel 1745 - 1826
Os motivos que levam o apito a entrar     
em funcionamento logo após a leitura do EFMA são vários: clientes sem dente,  
blusa com inscrição no bolso Pinel
cliente que chama armário de guarda-
roupa, partileira, agromerado, etc. Eu 
estava sentado a minha mesa diante de um projeto cuja cozinha parecia uma caveira, cheia de colunas e dentes, e comecei a perceber que eu estava perdido dentro daquele labirinto, quando a atendente do show-room ligou para a minha mesa e disse que havia alguém pedindo informações. Péssima hora para ser interrompido, justo quando encontrei uns pedacinhos de pão no piso daquela cozinha que iria me mostrar o caminho de uma grande solução... Tudo bem...  Endireitei a cara, esfreguei os olhos e dei uma olhada nos dentes, depois do almoço sempre corremos o risco do feijão dizer olá antes da gente...  
Bom dia, tudo bem??
Parecia até que eu era um amigo encontrando outro... Ele me olhou e ficou mudo!! Olhei para o lado como quem procura algo e voltei a falar. Tudo bem amigo? Posso ajudá-lo??? Ele chegou pertinho de mim, perto demais, e perguntou: Vocês fazem guarda-roupa??? Senti um repuxão no canto da minha boca que vinha do pescoço até um pouco acima das minhas coxas... Uuuuuuuueeeeeeeeeeeeeeeeee, a sirene tocou até ficar roxa, eu estava diante de um legítimo EFMA. Quantas letras têm a palavra “fazemos”, uma? Eu usei dez efes... Apontei uma cadeira junto a uma mesa e pedi para o senhor sentar-se. Perguntei: O senhor tem uma planta? Ele disse: Não, minha mulher é que molha uns pés de cebola lá na área... Fiquei procurando graça na piada do sujeito e o pior, não era piadaNão amigo, eu quis dizer se o senhor tem um desenho cotado do ambiente para que eu possa fazer uma proposta para o senhor... Ele ficou meio sem jeito e riu: Aaaah desculpa eu entendi errado. Não, não tenho um desenho. A sirene tocou de novo... Nisso entrou um garotinho correndo e foi direto na geladeira que temos na exposição, ele abriu a geladeira e bateu a porta com força... Comentei: Essas crianças sem disciplina... meus filhos não fariam isso... Ele concordou comigo com a cabeça, se virou para trás e disse: Zé Antônio, para de mexer nisso, droga...
Porra, fiquei super sem graça e ele completou: É a mãe dele que estraga essa criança. Para amenizar falei: Mais que garotão bonito, já tem quanto??? 10 anos??? Ele arrebatou: Nãããooo, já fez 15...
Porra de novo, eu estava desconcentrado, não deveria ter iniciado esse atendimento. Nisso entrou uma senhora com um penteado de coque, sei lá que nome se dá aquilo, de saia e uma meia até o joelho. Pegou o garoto pela mão e foi olhar o resto da loja. Anotei o endereço do cavalheiro para medir o local do projeto, rua tal, nr tal, bloco tal, bairro tal e perguntei: Pode ser na segunda-feira as 09 hs. Ele disse: Eu não vou estar em casa, mas pode ir... Eu perguntei: Quem vai estar na casa, a sua mãe??? Minha mãe? Minha mãe já morreu! Meu dedo ainda estava se recolhendo quando ele entendeu que eu estava falando daquela senhora de meião no meião loja. Aaaah não, ela não é minha mãe, é minha mulher... E é ela mesma quem vai te receber... Despedidas, tchau senhora, tchau Zé Antônio, tchau... Voltei arrasado para minha mesa e fiquei imaginando aquele cara rindo de repente no carro e sua esposa olha para ele pergunta: Que foi homem, tá rindo de que?? Daquele cara lá da loja do guarda-roupa, perguntou se o Zé Antônio tinha 10 anos e se você era a minha mãe... ha ha ha...  Me falta imaginação para pensar no que ela diria sobre isso... Já que era ela quem iria me receber, pergunta se eu fui???

Assustado com o Mundo...
Ricardo Cacilias

Obrigado pela lembrança, Dina.


Cenas do próximo capítulo:
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...Não estou me sentindo muito bem, e pus a mão na boca, a senhora muito preocupada perguntou: Quer que eu traga alguma coisa, uma água?? Eu disse: um Whisky com gelo me faria sentir melhor... ela me olhou com uma cara engraçada, mas na expectativa deu manchar seu carpete com o que eu tinha no estomago, correu buscar a bebida...
Tão logo o copo chegou em minhas mãos virei direto na boca, ela esperou um momento e perguntou: Melhorou?? Eu fiz cara de preocupado e disse: Estou quase bom... Ela não pensou duas vezes, correu e pegou outra dose, mas dessa vez copo cheio e sem gelo...