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segunda-feira, 4 de junho de 2012

ENCERRANDO CICLOS

Era primeiro de junho, sexta. Eu estava na masmorra do meu castelo vendo o mundo perfeito do facebook. Num daqueles meus lampejos reativos tirei uma foto do momento e a pus no face com o seguinte texto:
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"Mais uma sexta a noite e eu me divertindo horrores no computador... Parece uma masturbação, um prazer solitário, uma janela sem a luz do sol, um horizonte achatado, um monte de nada misturado com água da bica. Eu trocaria meus quatro monitores, meu laptop e meu desktop por um minuto de amor. Eu era adolescente nos anos 70 e não tinha carro. saía as vezes da casa dos amigos ou de uma festa as 3hs da manhã. Ia para o ponto do ônibus e ficava um tempo enorme esperando ele chegar. Era um vazio misturado com a expectativa de voltar para casa. Hoje sinto aquela mesma sensação de estar sentado no meio fio olhando para o fim da rua, esperando meu ônibus aparecer e me levar para casa... A diferença é que não sei se o ônibus virá e não tenho mais 17 anos. E bota diferença nisso. Enquanto isso, mais face..."
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Tenho uma querida amiga que mora em Olinda, lá pelas terras de Pernambuco. Aline de Paula não gastou suas palavras comigo, apenas se deu ao trabalho de me enviar um texto antigo do mestre Fernando Pessoa. Que delícia, que beleza, que verdades... Gostaria de ofertá-lo aos que passam aqui por minhas estalagens, para matarem suas sedes e fome, aos que como eu estão seguindo a estrada que compete a cada um trilhar.
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Encerrando Ciclos
Fernando Pessoa*..
FERNANDO PESSOA

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações? 
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu...
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado. 
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. 
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. 
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. 
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. 
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais. 
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal". 
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és...
E lembra-te: Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão!

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* Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".
Por ter sido educado na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa traduziu várias obras inglesas para português e obras portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros) para inglês.
Ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente".
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

sábado, 19 de maio de 2012

OS HOMENS MORREM PRIMEIRO...

Baseado numa história real







Em três dias** faço 53 anos.
Já esperei com alegria por esse dia, hoje não mais... 
É estranho me olhar no espelho pela manhã e assistir um rosto que não me representa. O tempo é como as ferrugens nas estruturas de ferro do cais, nos faz derreter, nos desmonta aos pouquinhos. No meu quinquagésimo terceiro aniversário, minha casa é um quarto numa rua pouco iluminada de Botafogo e meu casamento está guardado numa caixa de papelão num punhado de fotos desordenadas. Minha alegria é tão real como uma nota de três reais, mas sou sincero nesta mentira, chego a me convencer de que não sou tão triste assim... 
Não é a primeira vez que a minha casa é um quarto na casa de alguém. Há 25 anos, em maio de 1987, recém-separado, estava na faculdade cursando desenho industrial e precisava de um lugar para ficar. Alguém conhecia alguém que conhecia o João B.; logo apareceu o telefone dele, eu liguei e marcamos para conversar. Na tarde do dia seguinte saio do elevador com um endereço rabiscado as mãos, acompanhando os números em cima das portas, até chegar no 502. Coloquei-me a frente no que me pareceu ser a porta da sala, arrumei o cabelo diante de um espelho imaginário e apertei o botão da campainha. Um som de campainha velha e abafada soou lá por dentro. Escutei o barulho da tranca em movimento, só que na porta ao lado. Virei-me apressado e cheguei junto, não queria parecer um idiota diante da porta errada. Cheguei a pensar: "...mas quem recebe alguém pela porta da cozinha?" Um senhor gorducho, com um olhar indefinido e cabelos ralos me encarou apertando os olhos, esperei alguns segundos achando que ele iria dizer alguma coisa, mas diante do seu embaraçoso silencio eu disse "Oi". O sujeito não respondeu, mandou-me entrar com um movimento da cabeça em direção a porta... Em pé, no meio da cozinha, ele se apresentou formalmente: "Boa tarde, meu nome é João B. Você deve ser o Ricardo "do quarto". Posso te oferecer alguma coisa? Aceita um pouco de água?" Ele tinha um tom formal e elegante, parecia um diplomata... Seus cabelos ralos estavam penteados para trás, fixados com algum tipo de "gomex", suas bochechas eram fartas e coradas. Deu para ver que estava de pijama: "...as três horas da tarde?" pensei. Eu aceitei a sua água, mas para minha surpresa ele pegou um copo com cara de pote de requeijão, que estava virado de boca sobre um prato em cima da geladeira; sem brilho, vulgar, cheio de marcas de dedos, opaco, empoeirado, com cara de sujo mesmo e com uma pequena trinca na borda. Tive a sensação de que ele havia oferecido aquele copo para qualquer um que chegou a sua porta nos últimos 30 anos e nunca passou um sabãozinho. Ele abriu a geladeira, pegou a garrafa com água, encheu até a borda e me entregou. Parecia um teste. Na hora pensei: "O que vou fazer? Beber ou devolver o copo cheio?" Não demonstrei reação, não queria ofender o cara e precisava do quarto, peguei o copo, agradeci e bebi até a última gota. João parecia acompanhar cada gole com um leve movimento da cabeça; um sorriso enigmático foi surgindo à medida que o copo foi se esvaziando em minha boca. Quando terminei ele sorriu satisfeito. Senti que havia passado no "teste". Acertamos o preço e no dia seguinte levei a minha vida, dentro de uma pequena mala, para o tal quarto. Era uma quarta-feira do dia 20 de maio de 1987. João havia sido um advogado excepcional, de família ilustre, com sobrenome em placa de avenida aqui no Rio de Janeiro, mas pelo pouco que sei, se atrapalhou com opções de mais, decisões de menos e acabou um homem solitário, sem filhos e alcoólatra... Seu apartamento ficava na Rua Paissandu, próximo da esquina com a Rua Marques de Abrantes, no bairro do Flamengo. Ele alugava um dos quartos para ajudar no pagamento do condomínio. Para mim era muito prático, pois eu pegava o ônibus da linha 523, quase na porta, e me deixava em frente a faculdade, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Sua casa me lembrava um cenário de novela; eram móveis antigos, de bom gosto, parecia que o relógio havia parado nos anos 70 dentro daquelas paredes. Tudo bem arrumado, muito limpo, mas sem sentido: sem perfume de mulher, sem gargalhadas, sem criança ou passos de alguém chegando. Apenas um contínuo e incomodo estado de silêncio. Sou um dependente crônico de família que me impede de entender como um homem consegue ficar só, sem mulher, sem o calor de uma presença?!? Morei neste apartamento por seis meses e, durante esse tempo, nunca vi alguém aparecer para visitá-lo. Poucas vezes nos encontramos ou conversamos longamente sobre qualquer assunto, apenas amenidades, "bom dia", "oi", "tudo bem?..." Mas lembro de uma conversa que tivemos uma vez; ele me contou que os homens de sua família morriam aos 63 anos. "Porque aos 63 anos?" Minha pergunta ficou sem resposta, ele apenas disse: "...Ricardo, os homens morrem primeiro!". Na hora achei que estava alcoolizado, mas pensando melhor agora no seu rosto, no seu olhar e no tom de sua voz, acho que ele estava apenas deprimido. Passou um tempo, me mudei para um conjugado no mesmo bairro e na semana em que João completou 63 anos, recebi a notícia da sua morte; ataque fulminante do coração! Que merda!... Foi um enterro mudo. Apenas meia dúzia de pessoas, incluindo o coveiro, apareceram. Seu caminho até a cova teve um imprevisto, não havia homens suficientes para tirar o caixão da capela e leva-lo até o "carrinho". Confesso que até então, nunca tinha visto uma mulher segurar na alça de um caixão. Minha namorada na época me indicou com os olhos para pegar a alça da frente à direita, destinada ao irmão, ao pai, ao melhor amigo... Fiquei "mexido" com isso. Foi estranho sentir nas mãos o peso dele, morto, sem vida. Enquanto andávamos um curto trajeto, lembrei-me do seu copo d'água e agora que havia morrido, alguém acabaria lavando aquele copo ou o jogaria lixeira abaixo. Os anos passaram depressa, cheguei a maio de 2012 e os giros da vida me trouxeram de volta para outro quarto, num outro bairro, num outro tempo. A solidão sabe pregar suas peças, as vezes chego aqui neste quarto tarde e dou boa noite para as portas do armário, são quarto mocinhas brancas, de puxador pequeno, discretas e solidárias. Acho até que nutrem algum respeito por mim. Semana passada, já tarde da noite, estava deitado e ouvi uma delas sussurrar para a outra: "...Acho que ele é um cara legal, sente saudade dos filhos... Uma pessoa que sente saudade não pode ser de toda má. Ele parece um anjo dormindo, um anjo que ronca..." Ao ouvir a conversa, de dentro do armário o cabideiro disse com os dentes acirrados e voz abafada: "Não se deixem enganar, minhas filhas, Lúcifer também foi anjo um dia." Ao ouvir tamanha baboseira, reagi aos gritos: "Velho idiota, segura essa roupa direito e cala a tua boca! Quero dormir!" 
Bem... Eu apenas pensei em dizer, mas não disse. 
Eu não discuto com armário. 
Enterramos João no cemitério São João Batista, em Botafogo, num fim de tarde debaixo de uma chuva fina e sob um céu cinza. Nos afastamos em silencio olhando para o chão, como se procurássemos algum papel com um texto que justificasse o fim de algumas histórias ou o desperdício de outras... O que me consola é ter a certeza de que no curto trajeto entre a capela e minha cova, haverá mais pessoas presentes do que no enterro do João, ao menos filhos, filhas e alguns netos... Ainda sim, longe de mim qualquer pressa, tenho ainda que resgatar a sinceridade e deixar de fingir que sou um homem feliz. 
Que Deus te tenha João!


19-05-2012
dedicado ao João B.



** Esse texto foi escrito em maio de 2012. 
Essa história me faz lembrar a canção do Lulu Santos.

Como Uma Onda
Lulu Santos
  
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

SPAGHETTI...



O tempo e a maturidade me ensinaram algumas coisas, agora entendo que o Lar da nossa infância não é um um local das lembranças, construído de tijolos e pintura na parede, o Lar não é feito de pedra e tranca na porta, nós somos o Lar e onde estivermos, ele estará conosco.

Texto de 27 de abril de 2012



H
á duas horas cheguei do trabalho cansado e com fome. Pensei em fazer alguma coisa rápida e lembrei do macarrão. Peguei panela, massa, sal, óleo... Reparei que a panela era pequena. E agora? Pensando bem a panela não era assim tão pequena, bastava quebrar o spaghetti ao meio. Foi estranho pensar nisso, “quebrar o macarrão ao meio”... A família de onde eu nasci não faz isso. Sou um velho longe de casa, mas tenho alguns conceitos construídos desde criança. Lembro que eu tinha 5 anos quando vi uma propaganda na TV de uma marca de macarrão, a TV naquele tempo era em preto e branco e o tubo era
 meio arredondado. Na propaganda surgia um menino parecido comigo que quando colocava o macarrão na boca, fazia um biquinho e o macarrão sumia em sua 
como uma língua de cobra para dentro da sua boca, e ele sorria. Eu ficava fascinado com aquilo. Queria ser aquele menininho. Comíamos muito macarrão em casa, sou de origem italiana, mas por mais que eu tentasse, não havia jeito de colocar aquele spaghetti pra dentro como aquele garoto fazia... Um dia minha mãe disse: “Filho, tem que estar bem amanteigado...” Eu não disse nada, só abri os zoihão quando ela disse isso. Claro! Tinha. Fomos tirar a prova no almoço do dia seguinte. Minha irmã de três anos e meu irmão bebe dormiam. Era só eu e minha mãe... Fiquei do seu lado vendo passo a passo aquela mulher alta e branca como a neve preparar minha comida. Minha mãe gostava de cozinhar cantando, eu conhecia várias músicas da Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Marlene, Maysa, Ângela Maria... Várias vezes a ouvi dizer que gostaria de ter sido cantora. Como sempre fazia, minha mãe pegou um punhado de macarrão na mão direita e levava a esquerda em direção ao spaghetti para quebrá-lo ao meio. De repente eu dei um grito: “Não!” Minha mãe se sacudiu toda. “O que foi menino?” Então falei: “Na TV o macarrão e bem comprido...” O segredo estava desfeito. Minha mãe havia dito que o macarrão deveria ser amanteigado e sem queijo e eu completei dizendo que deveria ser comprido... A mão esquerda da minha mãe recuou, pegou a panela e colocou o macarrão inteiro dentro sem quebrá-lo. Depois de pronto ela escorreu a água, colocou o spaghetti numa travessa e encheu de manteiga. Corri para a mesa e fiquei esperando que me servisse balançando as perninhas de ansioso que estava. Separei um fio de spaghetti com o garfo, levei a boca e 
sorvi... Abri um lindo sorriso
de criança e minha mãe sorriu comigo, fizemos igual ao garoto da TV. Gotas de manteiga se espalharam pelo meu rosto, por minha roupa... Mas quem estava se importando? Estávamos nos divertindo e fazendo uma coisa só nossa. Que saudade! Acho que por causa daquele dia minha mãe nunca mais preparou um spaghetti partido para mim, não importava quantos anos foram passando, a macarronada sempre vinha inteira para o meu prato. Abri os olhos, acordei adulto de novo em frente a panela fumegando com fome e com o spaghetti na mão. Levei minha mão esquerda em direção a direita que segurava o spaghetti e parti o macarrão ao meio. Antes que eu pudesse me sentir um traidor do combinado com minha mãe há 49 anos, ocorreu o contrário, senti o calor da sua presença. Apesar dela estar vivendo num asilo na Tijuca e com avançado estágio de Alzheimer, senti intensamente minha mãe aqui comigo me autorizando a quebrá-lo; e fizemos juntos o meu jantar. Sempre tive uma vida corrida, casei duas vezes, tive 4 filhos, morei em milhares de lugares, mas hoje uma panela pequena me fez sentir a presença de minha mãe aqui na cozinha, diante do fogão, temperando minha comida de saudade. Enquanto escrevo essa frase ainda sinto o calor da sua companhia, logo vou me deitar, quem sabe ela não me canta alguma coisa antes de dormir?

Quem sabe... 
Boa Noite.


27-04-2012
dedicado ao amor das mães,
que a distancia e os anos não se deixa apagar




sábado, 21 de abril de 2012

MEU CÁRCERES PARTICULAR



Tenho feito mais amigos nos últimos 8 meses do que nos 8 anos anteriores... Um desses amigos é a Sandra, uma jornalista, escritora e acima de tudo um ser humano. Mencionei num texto antigo que o mundo é habitado por uma horda de Fdp e uns poucos seres humanos; ela se encaixa no segundo grupo. Estou mencionando Sandra porque numa conversa ela me contou que esteve a trabalho num cárceres "estourado" por policiais. Sei que estou exagerando, melodramatizando (sou geminiano o que você espera de mim?), mas aluguei um quarto em Botafogo e na primeira noite dormi entre paredes virgens das minhas emoções, ao lado de móveis carrancudos, impessoais e surdos das minhas histórias, sem meu cheiro, seco das minhas lágrimas, distante das minhas objeções, então lá pela meia noite a lembrança do cárcere veio a minha mente. Sinto-me um meliante preso por minhas ações... Ou conforme a frase atribuída a Pablo Neruda "Você é livre para fazer suas escolhas, mas prisioneiro das consequências" Ontem Iza me ligou, uma jovem velha amiga de muitos anos. Não nos falávamos a tempos. Sobre a nossa rápida conversa uma frase me chamou atenção: ela disse que vivemos dias em que a adaptabilidade é mais importante do que a improvisação... E para completar a ex-senhora B me enviou um e-mail dizendo que as mudanças fazem parte da vida, nos fazem renascer... Para alguém como eu que ama a rotina, alguns conceitos são como ter na ponta do garfo um grande pedaço de carne... eu preciso cortar em pedaços menores para conseguir digerir esses conceitos sem engasgar...  
É a obra prima de Deus falando comigo. Deus e suas mulheres. São as mulheres que não permitem que o mundo imploda. Se eu não gostasse tanto de ter um pinto, a ideia de ser uma mulher não é absurda. Elas estão 10 andares acima, mais próximas do céu católico, mas próximas da sensibilidade de Deus, mais próximas da visão mais clássica e pura da palavra humanidade... Ok, possivelmente eu seria uma mulher gay. Em meados dos anos 80 eu ouvi uma pregação de um pastor falando sobre O Tempo, o Agora e o Depois. Foi marcante, até hoje me recordo das suas palavras, mas quando ele disse que daqui a 100 anos ninguém saberá como eu era, o que fiz e o que vivi... Me ajudou a ver que eu não sou o centro do Universo e que o Sol não gira ao meu redor... Se eu fosse aquele comunista clássico que não aceita a existência de Deus, que não existe salvação e não existe o dia seguinte da morte, eu estaria tranquilo como uma criança bebendo leite quente nos seios de sua mãe... Você pode não concordar comigo, mas milhares de povos ao longo de milhares de anos dizem que a vida e a morte são continuidades da existência em planos diferentes... Acreditar nisso me faz dar pesos e medidas as minhas ações. Me faz acreditar que não existe buraco fundo e secreto suficiente para encobrir atitudes desastrosas e escolhas de uma vida. Eu sei que poderia ter sido um filho melhor, um pai melhor, um marido melhor e uma pessoa melhor do que tenho sido, ainda que acredite que não sou uma pessoa má, apenas uma pessoa... Não quero ofender aos judeus, mas até Hitler tinha momentos de ternura com crianças arianas e fazia festinhas em suas cabeças loirinhas enquanto dizia: Linda criança germânica... Nada é absoluto, nem a bondade e nem a maldade, mas ser apenas uma pessoa de atitudes boas me parece relativamente pouco. É estranho pensar que que daqui a 100 anos ninguém saberá sobre as coisas que realizei e no que acreditava. Em que eu baseava minhas atitudes, de que tintas eu pintava meus sonhos, de como eu entendia a constituição do amor e em que crenças eu depositava meus respeitos... Caso essa tecnológica possa me fazer sobreviver a esse tempo e um Cacilias do final desse século descubra fragmentos sobre mim, gostaria de dizer a ele que não existe espaço no mundo cibernético que pudesse conter descrições sobre a minha vida, das minhas paixões, das certezas de minha alma, assim como o Universo não teria espaço para que cada um desabotoa-se sua existência e desnuda-se suas vísceras... Uma vida é tão absolutamente grandiosa quanto são as estrela que possam caber no infinito... 
Mas ao menos, você do futuro, saiba que 100 anos atrás, numa noite solitariamente pessoal e indivisível, dormi entre paredes pintadas de ausências;
e chorei por minhas faltas... Uma noite em meu carceres particular...  


Ricardo Cacilias



quarta-feira, 11 de abril de 2012

HORA DO FODA-SE...

A rotina é como refresco de caju, todo mundo pensa numa segunda opção, mas quando chega aos lábios é uma delícia. Na rotina encontramos o conforto da falta de surpresas, revemos fotos antigas e não nos perdemos em nossos trajetos... Meus dias tem sido de crises cronicas e sem o colo quente e perfumado da rotina que me acalenta... Quando acordo meu coração está na segunda gaveta da comoda, meus pensamentos debaixo da cama e minhas coerências espalhadas pelo quarto... Como dói acordar! Seria muito confortável depositar minhas culpas nas costas de Lúcifer ou nas costas de Deus... Que merda! Tanto Deus quanto Lúcifer não se prestam a testas de ferro das minhas atitudes. Queria ter meus pais vivos me incomodando com seus alertas, avisos irritantes, conselhos não solicitados... Queria ter esse amor de volta, farol de minhas noites intermináveis...  Mas sou um velho de pais mortos, sem voz que me defenda, sem colos, sem família... Acordei as 8hs e não vi café na mesa. Com um grande rolo de fita durex fui me recompondo o suficiente para formar uma imagem humana; nada espetaculoso, apenas uma imagem. Lembrei de quantas horas tenho pela frente: 10, 12 15hs?!?... Essa legião de adolescentes, não fazem ideia como é bom ter uma torcida, ter apoio incondicional, fazer parte de um time... A maioria não faz ideia de como é superar os limites sozinho! Já se passaram quatro horas desde que acordei, agora estou na lavoura, o sol é meu vigia, tenho quinhões para cumprir e metas a realizar... Aqui no meu peito tem um botão vermelho escrito "hora do foda-se". Ele desliga meus pensamentos, me faz um robô, alguma coisa entre o eu e o possível... Deixo para pensar quando não for mais preciso pensar... Logo será noite novamente e poderei me desmontar em volta da minha cama... Fico por conta de uma incoerente realidade até que o sono me liberte no fim do dia...

Ricardo Cacilias
dedicado.a.sexta.que.se.aproxima

terça-feira, 3 de abril de 2012

UMA HISTÓRIA DE AMOR



Eu não tinha nascido, mas já existia dentro de meus pais. Meu pai já morreu e minha mãe está doente, mas  são eles agora que vivem dentro de mim. Dias depois da minha mãe ter tido um sério problema de saúde e eu e meus irmãos termos sido chamados às pressas no asilo onde ela fica, eu estava sentado à mesa da cozinha na casa da minha tia. Era tarde da noite e tinha meu olhar perdido no vapor da minha caneca de café enquanto ela virava nuvem... Minha tia veio lá de dentro tão suavemente que a sensação que tive foi que ela se materializou na minha frente. Ela se sentou do meu lado e vendo que eu estava entregue a pensamentos, do nada começou a me contar como meus pais haviam se conhecido... Eu só conhecia os contornos dessa história, mas em silêncio e aquecendo a língua com café, ouvi detalhes que desconhecia. Meu pai trabalhava na capital de São Paulo, morava numa pensão simples na Avenida São João. Minha mãe era do Espírito Santo e depois que minha avó morreu em 1954, ela veio para o Rio morar na casa de um dos meus tios. Vidas em movimento que me buscavam. Meu pai nunca teve o convívio de uma família, meu avô colocou-o num colégio interno quando ficou viúvo, pois o talento para ser pai lhe escapava. De tempos em tempos meu pai vinha ao Rio visitar sua irmã. Minha tia, sempre muito vaidosa, um dia descobriu que próximo a sua casa morava uma costureira capixaba de mão cheia e de bom preço para formar clientela. Foi assim que minha tia conheceu minha mãe. Com o tempo minha tia foi se afeiçoando àquela moça que gostava de contar histórias da sua terra, que sabia cozinhar, costurar, cuidar de uma casa e era solteira. Tinha os olhos mais azuis do que um céu sem nuvens numa manhã de verão, sua pele parecia pintada de neve, seus cabelos eram castanhos claros e desciam encaracolados sobre seus ombros, às vezes ela deixava escapulir um olhar distante, meio triste, meio de saudade, sua voz era suave e doce... Nunca foi o grande projeto de vida do meu pai ser rico, de seguir carreira, de ser erudito, o que ele mais queria na vida era ter uma família! Comecei a existir quando minha tia decidiu casar meu pai com minha mãe. Minha tia escreveu uma carta para meu pai no início de agosto 1956: "...Uma linda moça de pais italianos veio morar aqui perto na casa do Paresqui; lembra dele? Aquele alto que você achou metido? Pois não é que a moça é irmã dele. Ela é de boa família, uma moça para casar, e deve ser fértil, ela tem 12 irmãos... Quando vier da próxima vez vou te apresentar a Malvina, mas não demore, moça assim não costuma ficar solteira por muito tempo..." Voltando do correio minha tia foi fazer uma visita à vizinha costureira: "Tenho um irmão trabalhador que está ganhando muito dinheiro em São Paulo. É um rapaz honesto, sério e responsável... Infelizmente ainda não encontrou a moça certa... Você quer conhecer o meu irmão Gelson?" Cada vez que minha tia dizia o nome do meu pai ela levantava o queixo... dava a ideia de que meu pai era um gigante! E mais cartas foram seguindo para São Paulo e na volta do correio outras tantas visitas eram feitas à costureira para falar mais um pouco do seu irmão Gelson. Assim nasceu o interesse de um pelo outro. Eles se apaixonaram pelas descrições que minha tia fazia deles. O coração da minha mãe, menina simples do campo, católica apostólica romana, deve ter emprestado a imagem do guerreiro São Jorge, matador de dragões, aos contornos de tudo que ouvia do meu pai... Por outro lado meu pai estava certo de que havia encontrado a porta que o levaria à sua família, afinal... Chegou o grande dia da vinda de São Jorge ao encontro de Lady Godiva. Era meados de outubro, manhã de sábado. Minha mãe estava na sala sentada na poltrona, de frente para minha tia tomando café, quando minha tia abriu o maior sorriso olhando para a porta. Meu pai havia chegado de São Paulo e ainda de mala na mão disse parado na porta: "Tem café para um viajante?" Minha tia se levantou rápido e minha mãe com o coração pulando, virou-se para ver meu pai, mas para sua enorme surpresa, meu pai tinha a mesma altura dela, ou dois dedos mais alto como eu sempre a ouvi dizer: 1,58 m. Acredito que não era exatamente o corpo que minha mãe esperava, mas meu pai se apaixonou por minha mãe no momento em que seus olhos azuis cortaram seu coração em duas partes, onde uma metade ficou com ele e a outra metade pulou para o lado do coração dela; nem um guerreiro lutaria contra aqueles olhos, certamente seria pecado. Então meu pai passou a lutar como Jorge para defender o sucesso daquele encontro. Falou, argumentou, sorriu, gesticulou, emudeceu em contemplação... Por fim, naquele mesmo dia, meu pai convidou-a para que fossem tomar um lanche na Confeitaria Colombo no Centro da cidade. Voltaram horas depois noivos e de anel no dedo, se casaram 3 meses depois e minha mãe foi morar em São Paulo. Nessa parte da história eu já estava de xícara vazia e de olhos úmidos... E pensei nos meus pais, não como pais, mas num homem e numa mulher que se desejaram e viveram juntos por 35 anos. Muitas vezes, para não dizer sempre, enxergamos nossos pais como parte integrante de uma instituição familiar,  esquecemos que eles são como nós somos, pessoas. Que tiveram seus caminhos e encontros para que nós viéssemos a ter, por nossas vez, nossos caminhos e encontros com o destino.
   
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Ricardo Cacilias
dedicado a minha alegria de
saber que meus pais se amaram muito