Que fome. Já passa da meia noite e chove muito. Apesar de ser janeiro à temperatura
está agradável. Através da janela de outra pessoa vejo que o céu e a chuva parecem os mesmos, os números do relógio, o som do tic-tac, até o silêncio não mudou, eu é que não me reconheço. Acho que as mudanças fizeram da minha vida seu ninho... Esse casamento desfeito me colocou do lado oposto da porta, agora o olho mágico não aumenta mais as imagens, só as diminui. Dias antes de sair fiz preparativos como se fosse viajar para o outro lado do mundo, mas atravessar a rua sozinho e colocar meus pés na calçada oposto, viria a ser o lugar mais distante que cheguei... Como é difícil desfazer-se de quinquilharias! Durante séculos guardei coisas como se fossem o corpo embalsamado de um faraó da mais nobre dinastia. Um olhar pouco severo me fez ver que as "preciosidades" não passavam de papéis amarelos e objetos de pouco valor. Beatriz quis dividir de alguma forma os móveis, os talheres, as roupas de cama... Nossa! Uma tela de Picasso faria mais sentido do que saquear minha casa e deixá-la banguela, cotoca, desguarnecida. Uma vez escrevi:"A maior conquista de um guerreiro é conservar a sua integridade e os dedos que seguram a espada, pois dependerá deles na batalha do dia seguinte."Com uma caixa de papelão pesada cheia de "preciosidades", caminhei para a porta como se o chão fosse de manteiga, quis dizer alguma coisa, mas estava com a garganta travada! Se não fosse a bruta vergonha que senti na hora, teria chorado como uma criança no seu primeiro dia de escola. Só não queria passar pela porta encurvado... Dez dias antes eu havia ligado para a irmã do meu pai e tivemos a seguinte conversa: Tia:"Alooouu."Ricardo:
ROBERTO & TIA
"Oi, tia, sou eu...""Você
soube que tive que remover-um câncer de pele em meu rosto? Levei
10 pontos!""Sim, tia, eu soube. Fiquei feliz em saber que correu tudo bem..." "Não
me venha com essa, você foi incapaz de me ligar e nem veio me visitar!" "Eu
sei tia... Olha, foi mal! Tem coisa demais acontecendo. Minha vida está meio confusa... Eu liguei porque estou precisando de uma ajuda." "Ah
sim? O que foi?" "Eu
preciso sair daqui de casa. Preciso de um lugar para ficar por um tempo, apenas enquanto procuro uma casa nova... Posso ficar ai?"A
resposta veio na sequencia:"Mais claro que
não!""Não?!? Como não? Esse apartamento tem três quartos, a senhora vive sozinha..." Percebi
a tempo que havia ficado nervoso de mais para continuar a conversa e que não
havia considerado a possibilidade de uma recusa. Dei uma respirada e continuei:"Tudo
bem tia... Ninguém é obrigado a abrir a sua casa para os outros, mesmo que
seja para um afilhado... Eu ligo outra hora."
ROBERTO & RICARDO
Desliguei.
O universo precisou de poucos instantes para se revelar infinito... Então liguei
para meu irmão, contei a mesma história e ele disse:"Tudo
bem, venha e fique o tempo que precisar..."Foi
quando voltei a sentir o chão debaixo dos meus pés e o formigamento do meu ventre diminuir. Minha cunhada Carla está grávida de um menino e eles
só têm dois quartos: o deles e do meu sobrinho Guilherme. Não que eu me importasse
de dormir no travesseiro do Pateta e me cobrisse com o lençol do Batman, mas
fiquei constrangido com tudo isso e disse ao Beto:"Cara,
fala com tua mulher, a casa é de vocês. Isso tudo é muito chato. Conversem, eu ligo mais tarde..."Desliguei. Já ia me levantar quando o telefone tocou, era minha tia:"Tudo
bem, pode vir, mas não deixe de procurar uma casa para
você, ninguém deve viver de favores..." Pensei na hora:"Minha
viajem para o outro lado da calçada está apenas começado..."Dez dias depois, aqui
estou, na casa da minha tia, olhando pela janela de alguém a chuva que pertence a todos, revendo meus
filmes em preto e branco, colecionando perguntas e poucas respostas. É engraçado ser tratado como criança. Minha tia tem 82 anos e muito lúcida, mas esquece que já passei dos 50. Agora a pouco tomei banho e me vesti para sair e comer alguma coisa, no meu caso tristeza abre o apetite. Para ser discreto saía pela porta dos fundos até ser sacudido por uma voz:"Onde você vai?" "Vou
comer alguma coisa..." "Bobagem, tem tudo
em casa. O que você quer?"Fechei a porta e fiquei até emocionado com esse carinho..."Sei
lá, eu... Quem sabe um bifão mal passado na manteiga com bastante cebola e um copo de coca gelada!?"Minha boca fez água e meus
olhos se expandiram com a testa que os puxou... "Vai
pra sala!" Minha tia seguiu para a cozinha e fui me sentar a cabeceira da mesa. Meus olhos flutuavam pela sala, um forte tic-tac vinha de um relógio antigo atrás de mim, olhei para os
quadros desalinhados, para o arranjo de bibelôs de cristal na estante e as cortinas balançavam em câmera lenta. Pensei na minha casa "do outro lado da calçada", senti um imenso vazio e a sensação de ter deixado braços e pernas na casa antiga era muito forte. O silêncio fazia parte da decoração, exceto pelo som da chuva forte chocando-se contra as vidraças. Fiz um trato comigo mesmo, não importava como
chegasse o tal bife, ele seria elogiado como se fosse a carne mais gostosa do
mundo. "Que fome!" Minha
tia entrou na sala com ares de formalidade, tinha as mãos uma bandeja de prata manchada e mal polida. Colocou as seguintes coisas diante de mim: Meio pacote de biscoito cream-cracker, uma latinha de atum no
óleo, um concentrado de manga, uma garrafa com água, uma cambuca de gelo e disse:"Não tenho carne, mas tenho esse atum
maravilhoso. Sempre guardo uma latinha em casa para uma emergência... Tudo
bem?" Minha consciência se agarrou a minha língua e meu coração o microfone da alma e respondi:"Claro, tia!... Eu adoro atum em lata..."
Há pessoas que dizem que isso é história de velhas tecedeiras para passar o tempo, enquanto trabalhavam a lã sob o Sol fraco da primavera; mas há quem afirme que König Callaghan existiu e ainda levantam o braço para apontar onde ficava sua casa. Foi no início do verão de 1938 na quase deserta península de Fanad, no condado de Donegal, extremo norte da Irlanda.Numa noite que poderia ser qualquer noite de neblina sem estrelas, sobre os rochedos salgados das encostas, próximo ao antigo farol, uma pequena pluma se aproxima cavalgando, hora agarrada numa brisa, hora em outra. Subia, caia, flutuava, mas parecia seguir um traçado imaginário entre ela e o seu destino. Ao passar por uma das poucas casas que havia lá embaixo, a pluma foi perdendo altura suavemente, parecia parada, mas se movia quase em linha reta; de um jeito que deixou o vento forte da madrugada sem entender tamanha serenidade. Ela pousou no telhado de uma casa, junto da chaminé, e ali ficou. A casa era de König Callaghan.
Callaghan era um irlandês carrancudo e mal humorado, que vivi ali sozinho havia muitos anos. Ninguém sabia ao certo sua idade, uns diziam que ele tinha 50, outros que já passava dos 70; seu mau humor e rabugice mantinha a todos longe do seu convívio. A casa de Callaghan havia sido construída por seu avô e fora reformada anos depois pelo seu pai, o velho Sean Callaghan, um pequeno criador de ovelhas da região. Era uma casa de pedra caiada com um telhado de palha, colhida no verão nas ceifas do campo. As palhas eram trançadas em cordas e as pontas fixadas em estacas de ferro cravadas na parte de cima das paredes grossas. Era uma técnica antiga, mas eficiente, resistia muito bem aos constantes ventos que vinham junto com o outono. No inverno mantinha a casa aquecida e no verão espantava o calor.
Casa da família Callaghan Sec. XX - Anos 30
Todas as noites riscos de luz do Farol de Fanad, a poucas milhas de sua casa, entravam pela janela adentro do seu quarto voltada para o norte. A luz do farol vinha para provocá-lo, incomodá-lo com a lembrança de um mundo vivo e vibrante, além das paredes da sua vida. Nem sempre fora assim, sua casa já esteve cheia de pessoas, uma família, mas as circunstancias que molduram o tempo tratou de levar um a um embora. Na manhã de um domingo nublado o velho Sean não acordou, morreu de velho, disseram. Colocaram seu corpo junto ao da esposa, no pequeno cemitério do vale. Callaghan pareceu
não se importar muito, depois dos cumprimentos dos vizinhos, foi para casa, sentou-se na frente da lareira e ficou por horas olhando a dança das chamas, vez por outra tragava seu cachimbo com força, mas deixava a fumaça sair lentamente dos seus pensamentos; sua esposa o deixou quieto com suas lembranças. Num outro dia, com um assobio alto e agudo, chamou seu cachorro para comer e entrou em casa. A botija de comida ficou cheia durante todo o dia e a noite inteira. Na manhã seguinte Callaghan se abaixou para pegar a botija, a esvaziou batendo contra o machado cravado num toco de madeira, olhou para longe com uma leve pressão das sobrancelhas sobre os olhos, respirou fundo, inclinou a cabeça e entrou pra dentro de casa... Cathleen era uma mulher silenciosa, aprendeu a agir e a se movimentar conforme os humores do marido. Tiveram dois filhos. Os quatro pareciam imagens em movimento, como peças que compunham a decoração da casa. Apenas estavam lá. Haviam distancias provocadas por um coração amarelado, como as páginas de um livro que não se pode mais ler, pois o tempo desgastou o seu texto... Por fim, um dia ao voltar da lida do campo, como aconteceu com seu cachorro, sua mulher e filhos não apareceram para almoçar, colocaram seus motivos na mala e se foram também. Ao chegar em casa Callaghan encontrou sobre a mesa da cozinha o almoço pronto, um prato e talheres. Sentou-se como se já entendesse o que havia acontecido. Almoçou olhando para porta aberta, talvez esperasse que voltassem, talvez pensasse em segui-los, talvez apenas olhasse... Um tempo depois recebeu uma carta da cidade de Cushendall, mas nunca abriu. Guardou a carta debaixo de botas velhas no quarto que era dos seus pais, e ali ficou. Durante o dia, conforme a direção do vento, era possível sentir o cheiro forte da maresia e a noite, misturado com as brumas, o cheiro doce das matas primitivas que cresciam nos campos ao redor e nas montanhas mais ao longe. Num certo dia, após uma manhã de rotina de trabalho com algumas ovelhas e plantações, Callaghan havia almoçado seu carneiro pincelado com mel, recheado com folhas de hortelã e algumas batatas assadas. Ele não gostava de cozinhar, mas essa comida em especial lembrava sua mãe; foi com ela que ele aprendeu a fazer. Ele tinha oito anos quando a senhora Nolan morreu de tuberculose. Isso foi um desastre na sua vida. Talvez como defesa de uma criança triste, ele criou uma fantasia na sua cabeça de que sua mãe não havia morrido, mas ido visitar parentes do outro lado da Irlanda e que ela voltaria um dia. Desceria a colina ao seu encontro, como fazia quando voltava para casa e ele correria em sua direção. Callaghan não viu o corpo de sua mãe, o caixão permaneceu fechado até ser baixado a terra, como era costume fazer naqueles dias quando alguém morria dessa maldita doença; isso só fez aumentar o seu sentimento de que sua mãe estava viva... Mesmo agora, velho e amargurado, em algum lugar daquele coração seco havia a umidade da sensação de ver a senhora Nolan descendo colina abaixo, voltando pra casa... Naquele almoço bebera uma
caneca a mais de vinho do que de costume, ao pensar em sua mãe, levantou a caneca como a um brinde e a esvaziou em poucos goles. Resolveu caminhar pros lados do farol para desgastar a comida e o vinho, o trabalho que esperasse um pouco. Após andar por meia hora, sentou-se numa pedra arredondada junto a um tronco seco e recostou-se, a brisa acariciou sua barba, as sombras das folhas, filhas do Sol e o vento, dançaram sobre seus olhos e ele se entregou ao sono... Estando em sono profundo foi despertado ao ouvir o seu nome. Seus olhos abriram assustados e ao se virar levantou-se lentamente e assombrado. Viu a imagem de Cathleen e de seus filhos vestidos de fantasma. Estavam a sua frente silenciosos, apenas olhavam. Seu espanto não foi maior do que seu medo, muitos anos se passaram sem ter recebido sequer uma visita, ainda mais assim, de pessoas que não pisavam no chão... Nada falou, não se moveu, apenas se olhavam. Seu coração se debatia como as asas de uma gaivota presa na rede de pesca, seu peito tremia, um terremoto foi revirando as terras da sua emoção, ou antes, melhor, foi colocando as coisas no lugar... Saudade misturada com arrependimento, misturados com solidão, misturados com ventania, misturados com o vazio que nada mistura... Callaghan levantou suas mãos como se quisesse toca-los... Seus fantasmas sorriram e ele sorriu também, mas junto veio um pranto e ele caiu por terra e chorou muito...
Não se sabe quanto tempo se passou, mas quando Callaghan se levantou o Sol já não podia ser visto, estava atrás da linha do mar e no céu restava uma explosão de cores confusas que nem definiam a noite e tão pouco lembravam o dia. Ele olhou em volta e estava só, procurou seus óculos, limpou a roupa suja de terra e chegou a pensar o que diriam se o vissem daquele jeito caído no chão como um bêbado... O que aconteceu? A explicação não era tão importante quanto o efeito produzido... Um véu qualquer foi rompido entre ele e a sua vida, parecia que seu coração havia sido lavado com a água salgado do mar a sua frente. Voltou para casa caminhando lento, olhar perdido sobre o mato seco e os cascalhos do caminho. De repente, veio de dentro, do mais fundo do que ele poderia sentir. Callaghan começou a assobiar uma antiga canção irlandesa. Seu rosto abriu iluminado e um enorme sorriso adormecido cresceu debaixo do seu nariz...
.
Ele assobiava e sorria...
.
Naquela noite König Callaghan foi se deitar mais cedo, as primeiras estrelas ainda estavam acendendo quando seu corpo afundou no colchão de lã de ovelha que pertencerá a seus pais. Por alguns instantes seu olhos deslizaram pelo madeiramento manchado do teto como se procurasse alguma coisa... Novamente e como em todas as noites, riscos de luz do farol da península invadiram sua janela, mas dessa vez sua raiva costumeira deu lugar a um sentimento de boas vindas. Um leve sorriso de cumplicidade surgiu no canto da sua boca. A decisão estava tomada, nas primeiras horas do dia seguinte pegaria seu boné e iria para Cushendall, iria atrás do endereço do envelope, que um par de botas velhas guardou por anos. Iria procurar seus fantasmas que viviam por lá. E adormeceu...
.
Neste instante um vento quente suspirou lá fora e tirou do lugar à pequena pluma que estava junto à chaminé. Ela elevou-se no ar, rodopiou várias vezes, subiu, subiu, até perder-se entre as nuvens... O verão estava apenas começando...
Lighthouse at Fanad Head, Donegal Peninsula, Co. Donegal, Ireland
Quando eu nasci meu pai tinha 30 anos. Ele sempre foi muito reservado, não era dado a "espumas", não espalhava seus "confetes" e não apreciava a exposição; os portões da sua intimidade sempre foram pesados e de pouco acesso... Lembro de uma história que ele me contou no verão de 1967, e que sempre me ajudou a entender um pouco esse homem que, de uma única célula de seu corpo me fez existir e de mim vieram meus quatro filhos e depois outros quatro netos... Era manhã de domingo e morávamos no quarto andar de um prédio antigo no Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro. Ele havia me dado, na noite anterior, uma caixa de bombons, mas eu estava chateado porque minha mãe havia "confiscado" a minha caixa e me dera apenas um bombom. Ela me disse que de vez em quando eu poderia ganhar outro;
desde que eu fizesse por merecer, fosse obediente e não brigasse com meus irmãos... E guardou a caixa de bombons em local incerto e não
conhecido. Aff... Coisas de mãe.
Eu estava deitado em minha cama, terminando de mastigar compenetrado meu bombom, enquanto que a folha de alumínio em minhas mãos refletia a luz de uma janela próxima, em meu rosto... Meu pai passou pelo corredor, parou em frente à porta do meu quarto e
perguntou: "Estava bom?" Devolvi um olhar enfadonho e
disse: "Quero mais..." Meu pai apenas respondeu: "Isso é com sua mãe, não vou me meter nisso." Voltei meus olhos para o papel de alumínio amassado, pensando em lamber a mancha de chocolate que estava nela. Meu pai deve ter ficado com pena de mim, entrou no quarto e sentou-se
na beirada da cama. De súbito seu rosto foi se pondo como um Sol de fim de
tarde, e com ares de quem se lembra de alguma coisa, disse: "É melhor ter um bombom de vez em quando do que perder todos de uma só vez..." Olhei para ele sem entender porque tinha dito isso, e ainda olhando para o mesmo ponto distante, muito além do meu quarto, ele
continuou: "Eu tinha a sua idade quando uma vez seu avô
foi me visitar no colégio interno em que eu estudava e me trouxe uma caixa
de bombons."Tempos depois fui saber que isso aconteceu em 1936 e
nessa época meu pai também tinha 8 anos. Ele estudava num colégio interno onde
permanecia o mês inteiro e saía apenas dois fins de semana para ir em casa. Minha avó
havia morrido em 1930 e com apenas 2 anos meu pai perdeu sua mãe; eu nunca conheci a
minha avó e ele nunca teve muita coisa para me contar sobre ela... O que mais me
incomoda nessa conversa que tivemos é que minhas lembranças estão fragmentadas, e infelizmente não tenho mais a quem perguntar os detalhes, porque todos os envolvidos já se foram; então, ao longo dos anos eu fui preenchendo em minha mente as lacunas esfumaçadas dessa conversa... Até onde me lembro da história, à visita do meu avô, naquele domingo, teve um momento diferente e marcante: ele levou uma caixa de bombons para meu pai. Era uma caixa de bombons diferentes de hoje em dia, a caixa era de madeira da marca Moinho de Ouro e provavelmente fora comprado na Av. Rio Branco, no centro de um Rio de Janeiro dos anos 30... Naquela época não era comum dar bombons para crianças, por isso
esse presente foi tão especial, ainda mais por ter sido dado pelo seu
pai. Consigo imaginar quantas saudades, quantos vazios, quantas "faltas" rechearam o coração desse menino; longe de casa e longe do amor de uma mãe. De certo aqueles dias refletiram nos alicerces da sua
vida. Os outros meninos que estavam no pátio viram ele receber a tal
caixa de bombons e quando o horário de visita dos internos terminou, e meu avô foi embora, sua
maior preocupação era proteger seus bombons, já que os armários eram
sem chave e os quartos eram coletivos... Nesse ponto da história meu pai já
tinha toda a minha atenção, eu estava virado para ele, sentado sobre o
colchão da cama com as pernas cruzadas e meu queixo apoiado sobre minhas mãos. Minha imaginação de criança ia criando as imagens de tudo que ele me contava, e ao mesmo tempo pensava no que eu faria se estivesse no lugar dele. Eu era um menino "bobinho" cercado de todos os cuidados de uma mãe e de um pai muito presentes, ainda não tinha o jogo de cintura que a vida foi me esculpindo na alma e nem a perspicácia de um menino que crescia sem mãe, morando
num colégio interno e longe de todos os cheiros que nos fazem sentir em
casa. Ele disse que enquanto subia a escadaria de madeira, que o levaria até o seu alojamento, teve uma ideia. Passou correndo na cozinha do refeitório e conseguiu alguns barbantes que se
usava na época para amarrar o pacote do pão; eram fios de algodão fino e comprido.
Ao chegar em seu quarto ele arrebentou com as mãos diversos pedaços de barbante e entrou para debaixo da sua cama com os barbantes e a caixa de bombons.
Debaixo da cama ele foi amarrando cada bombom a um fio de barbante e depois foi prendendo, um por um, nas molas do estrado do colchão; quando terminou sua tarefa, seus bombons balançavam alegremente como se estivessem felizes e surpresos por tão inusitado destino.
Sentindo-se seguro e satisfeito com seu plano, meu pai saiu de debaixo da cama
e se certificou que ninguém havia visto nada do que fizera. Meus olhos estavam sobre meu pai, mas o meu entendimento estava nas imagens que eu assistia durante o seu relato; eu imagino meu pai menininho, deitado debaixo da cama, polindo o chão com as costas da camisa, amarrando os bombons nos fios de barbante de pão, com seus
dedinhos movendo-se apressadamente, acompanhado apenas por um coração palpitante e um par de olhos
serenos do seu anjo guardião. Naquela noite ele foi para a
cama satisfeito, ainda que por causa da pressa, não tenha comida nenhum bombom, era seu tesouro particular; o único
menino daquela instituição que tinha bombons escondidos em local incerto e
não conhecido... Na manhã seguinte, nos primeiros lampejos de luz e antes que qualquer um tivesse acordado, meu pai escorreu por entre lençóis para debaixo da cama para comer seu primeiro bombom... e para sua
mais absoluta surpresa, todos os bombons haviam desaparecido! Não havia nada além de
barbantes amarrados à papéis destroçados. Um cemitério sem almas...
Fiquei de olhos arregalados e de boca aberta ao ouvir tal desastre, sentia como se eu estivesse
ali com ele debaixo da cama, atônito, sem respostas, desamparado, longe de casa e cercado de estranhos. Eu nem piscava, apenas acompanhava o movimento dos olhos do meu pai enquanto relembrava aquele momento... Não sei se meu pai chorou, não sei se xingou, não lembro o que ele me
contou ter feito em seguida. Que pena! Talvez tenha sido o efeito que essa estória
produziu em mim, mas até hoje sinto uma sensação forte de ter visto nos
olhos do meu pai, entre um piscar e outro, o mesmo olhar de tristeza e frustração que aquele menino de oito anos sentiu. Por um instante fomos dois meninos
deitados debaixo da cama, abafando o choro, sem ter para quem pedir amor e colo; ele nunca soube, mas eu estava ali com ele em espírito... Meses se passaram até que um dia, após o almoço e no pátio da escola, um menininho como ele, também longe de casa
e vivendo entre estranhos, se aproximou de meu pai e disse que queria lhe contar
uma coisa:“Gelson, eu vi quando você ganhou os bombons do
seu pai naquele dia... Esperei que todos fossem dormir e fui procurá-los em seu
armário... Estava muito escuro, eu não conseguia ver quase nada e revirava tudo sem fazer barulho. Até que você se mexeu, enquanto dormia, e me
assustei, fiquei com medo de ser visto, me escondi debaixo da sua cama e bati
com meu rosto nos bombons. Fiquei ali até comer o último...” Meu pai não brigou, não disse nada... O que poderia dizer? Apenas se afastou, talvez com uma certa paz de ter descoberto o que havia acontecido, talvez com alguma compreensão de saber o que aquele menino também sentia por viver ali..., mas tudo aquilo não deixou de ser uma lição para a vida. Até onde me lembro à história termina aqui! Às
vezes acreditamos ter as coisas sob controle e achamos ter amarrado muito
bem nossos valores no lugar mais seguro do mundo e bem debaixo do nosso
nariz... Às vezes bastam apenas algumas horas de uma
noite qualquer e acordamos despidos desses valores sem encontrar uma explicação
lógica para tantas perdas. Eu tiro disso uma lição, que nada na vida é uma
certeza absoluta que não mereça constante cuidado e atenção. As vezes ficamos
tão concentrados nos "barbantes" e nos esquecemos da qualidade dos nós que
estamos lhes dando. Meu pai morreu em 1989 e de vez em quando me lembro dele e às
vezes dos bombons que roubaram da gente; e por mais que eu tenha revirado por semanas a minha casa, eu nunca achei o lugar em que minha mãe escondeu a caixa dos meus bombons..., mas eu comi todos eles.
30-12-2011
Singela homenagem ao melhor cara que o
infinito abrigou em toda a sua extensão desde aqui até a mais distante estrela do Universo:
Neste fim de tarde voltei para casa em meio a um trânsito absolutamente caótico e intrafegável... Filas sem fim de carros dispostos um atrás do outro, com seus motores quentes e mal humorados, habitados por pessoas de olhares "zumbilescos", encobertos pelas cascas dos vidros e suas películas escuras... Com minha lambreta deslizo a 30, 40 km por entre um milhão de almas agarradas em seus volantes, de ar ligado e música alta. Ultimamente tem sido o melhor momento do dia, deslizar por entre almas encarceradas, essa visão me faz sentir uma poeira livre no Universo. É o meu primeiro Natal divorciado, preciso reconhecer que gosto da minha companhia, mas ela não me basta; dessa forma, na medida em que o Natal se aproxima, lamento não estar em janeiro... Há 32 anos eu tinha um propósito, queria ter uma família e filhos em minha volta. Fiz tudo que sabia e que poderia inventar para que fosse assim... E cheguei até aqui, vou passar o Natal com meu laptop e uma tela de 24" como companhias. Em nove dias será natal, tive 52 em minha vida, com muita ajuda minha, esse será o mais triste deles... Eu esperava mais de mim. Quando alguém me decepciona sei trata-la na medida dos seus desacertos, mas como devo absorver minhas decepções? A última vez que tirei uma foto ao lado do Papai Noel eu tinha 4 anos, e hoje de tarde tive a oportunidade de tirar outra. Conversei com o Papai Noel do shopping e menti descaradamente, disse que era para enviar uma foto para meu netinho... O idiota do Noel acreditou e saímos sorrindo na foto... Seria patético se não fosse triste. Nada como um Natal após o outro.
Boa noite meu amigo. Nos anos 70 tínhamos dois seriados de TV que competiam entre si: Jeane é Um Gênio e A Feiticeira. Nossa isso faz muito tempo!... Lembro do primeiro filme da Jeane, o major Nelson andando por uma praia deserta acha a “lâmpada mágica”, esfrega e a Jeane, aquele mulherão maravilhoso aparece diante dele no meio de uma nuvem de fumaça rosa o chamando de “amo” e que ela estava ali para realizar todos os seus desejos... Os anos 70 eram muito loucos!!! Eu sempre considerei esse major Nelson o maior bundão do planeta, mas não quero seguir por esse atalho... Você pode achar uma “lâmpada mágica” e ser dono de um gênio, você pode ganhar na mega sena e você passa a ser o “gênio”, você pode ser um empresário dono da Microsoft, você pode descobrir uma fórmula mais poderosa do que a da coca-cola... Você pode ser tudo que a sua imaginação conceber; mas quem vai além? Quem ultrapassa as cercas da fantasia e consegue imaginar alguém dono de Deus?? Eu era adolescente quando li em algum lugar que nos anos 50, apareceu pichado no metro de Nova York a seguinte frase: "God is dead!" "Deus morreu!” Logo a baixo estava escrito “Nietzsche” (Filósofo alemão nascido em 1844 e morto em 1900 aos 55 anos). No dia seguinte outro texto estava escrito abaixo deste: "Nietzsche is Dead!!"“Nietzsche morreu!” Assinado: Deus. Sempre achei saborosa essa estória. Deus estaria morto? Seria essa a razão de não falar mais conosco como lemos no antigo testamento? Teria Deus se ocupado com outros assuntos e se distanciado de nós? Eu estava hoje mais cedo na fila do Itaú para pagar o asilo da minha mãe, a fila era longa e no exercício da espera, além de ficar vendo moscas voarem e encarar a luz da lâmpada fluorescente sobre minha cabeça, tive um mal súbito de questionamentos: Deus está vivo? Deus é branco? Deus é mulher? Deus é judeu ou muçulmano? Deus é um conceito emocional que justifica os mistérios? Deus é a palavra onde me abrigo dos sortilégios? Deus é uma variante psico/emocional que recorro na ausência de uma substância ao meu socorro? Deus é uma bengala?? Deus tem dono? Deus é uma doutrina, uma igreja, um grupo de pessoas...? Vou juntando pensamentos sobre letras e palavras na esperança de brotar qualquer luz que me aqueça as 23:45 deste fim de dia. Esse assunto “Deus” já matou muita gente ao longo de centenas de anos, desfez reinados, subjugou povos, escravizou multidões... Em nome de Deus atitudes satânicas obtiveram plenos poderes para “ajustar” as coisas a sua “divindade”. Aquela minha amiga judia não fala mais comigo depois que eu disse a ela que era judeu também, a partir da premissa que se Jesus era judeu, pelo amor a ele, assim me considero... Ou seja, em outras palavras, as cores do mapa perdem sentido quando você enxerga as pessoas como elas são: assustadas e aflitas para serem felizes e respeitadas assim como desejo... Eu escrevi um texto há um tempo atrás pedindo perdão aos judeus por atitudes, pensamentos, bobagens de uma ignorância absorvida nas entrelinhas de uma nação subdesenvolvida como é o Brasil. Fui um pouco mais a frente e pedi publicamente perdão aos gays e a todos aqueles que desdenhei por manifestarem uma crença e um entendimento das coisas diferentes dos meus. Isso inclui até os argentinos... A “verdade” é um prisma multifacetado... Algumas pessoas enxergam grandiosas coisas, mas por uma pequena fresta da porta e na cegueira de suas almas subnutridas, catam pedras do chão aguardando um embate, temerárias deste mundo ácido, agressivo e competitivo! Pedras são lançadas como balas de uma metralhadora, varrendo em sua volta qualquer tipo de aproximação ou de junção. Afastam a pluralidade como quem enxota as moscas. Meu “crachá” não me habilita, minha senha não me identifica... Imagino que se houvessem seres de outro planeta e resolvessem atacar o nosso planeta, estaríamos perdidos... Somos divididos! Somos retalhados por subconjuntos de crenças, de cores, de direções... Nós somos um bando de merdas rastejantes, nos odiamos, não nos aceitamos e ficamos em nossas trincheiras até a morte!!! Não sei quem é o dono de Deus, mas tenho roubado essa franquia, tenho usado Deus sem pagar os royalties a quem é de direto. Hoje mesmo fiz uma ligação “clandestina” para Deus, ele chegou a se assustar, eu estava usando uma linha particular de outra denominação... Deus foi dividido entre as crenças, foi rotulado, etiquetado, recebeu até um código de barra... Eu já disse isso uma vez aqui nesta tribuna e vou repetir: não existem duas igrejas cristãs que contam a mesma história. Então a conclusão é que apenas uma igreja será salva, talvez por ser a campeã em interpretação bíblica, e todas as outras restarão apenas um lugar quente e distante pra viverem a eternidade. É isso? Fim? Apesar de ter ofendido a delicados conceitos e sentimentos de alguns “cristãos” por ter dito que Deus é meu amigo... Vou continuar sistematicamente a ofendê-los de maneira gospel, mas não abrirei mão desta amizade! Deus é meu amigo! Justificado por minha fé, por minha humanidade seca por seu amor, por minha clarividência insipiente... Tenho nojo dos donos de Deus. De suas frases de efeito, de suas citações bíblicas, de seus conhecimentos, de suas autoridades, de tudo que se resume em cercas em terno do Seu nome... Apesar de ser apenas um caboclo de olhos verdes de mediana cultura, afirmo categórico: para ser amigo de Deus basta apenas SER! Não serei cuspido, rejeitado, ignorado, antes porém, me deleitarei como parte deste corpo divino. Daqui a poucas horas meu despertador vai tocar, mais uma segunda-feira para “tocar” o gado dos investidores... Estarei altivo, de banho tomado, perfumado e feliz; nesta briga da vida, meu “campeão” é Deus!
Hoje faz exatamente 1 ano que rabisquei num papel como foi ter despertado no meio de uma madrugada quente e perdida entre outras madrugadas que não despertei... O tempo não esmaeceu nenhum detalhe, sinto tão vivo como se tivesse acontecido agora a pouco. Garimpando minhas pastas empoeiradas, surgiu esse texto escrito numa folha amassada. Agora também é madrugada do dia 07 de dezembro de 2011, mas hoje em nada lembra aquela noite...
Numa dessas noites quentes de verão, despertei alheio a motivos,
tão suave e infiel, que fui juntando meus pedacinhos para perceber que estava
acordando. Voltei daquele lugar que nos refugiamos quando não estamos vivos,
onde posso voar, gritar e andar nu pelas ruas da fantasia... Ainda bêbado do sono que me devorava, ignorei o relógio, não me interessei em saber
a que horas andava o tempo. Na verdade cheguei a me deleitar com essa
ignorância, pois aquele que me comanda o dia, ali, no canto, calçado de
sombras, era apenas um vulto desalinhado despido de importâncias. Assim devem
viver os anjos, sem o tempo a envelhecer suas asas, sem os ponteiros espetando
suas almas. Apenas existem! A madrugada tem luz própria, alguma lua se espelha
nas nuvens e estas dividem seu sorriso com a penumbra; não senti o bem nem o mal,
só me senti parte de tudo aquilo. O relógio baixinho roncava seus tic e
tacs; o coitado também se entregou ao sono. As águas do oceano, que se
aqueceram durante o dia, tragavam o ar mais fresco da costa, e nesse caminho de
fuga uma brisa fresca invadiu o quarto com um único propósito: mexer nos cabelos
da mulher que adormecia ao meu lado. Foi para isso que os anjos me acordaram?
Para ver seus cabelos caírem em seu rosto? Alados travessos... Meus
olhos deslizaram para a janela e pude ver milhões de estrelas, e mesmo sabendo
que a muitas delas já estão extintas, naquele instante e só pra mim, a luz
desses vagalumes me fizeram companhia. Um movimento inocente do seu corpo
atraiu minha atenção e sem pressa, olhei cada detalhe das suas curvas e de suas
dobras e te desejei. Assistindo teu sono profundo, sua respiração era a música que fazia seus seios dançarem, desenhos indefesos que me aliciavam e me umedeciam a boca. Em
meio ao silêncio distante e esquecido que só a madrugada produz, contemplei teu rosto; sereno, sem
emoção, sem riso, sem raiva, apenas sono. Pude te olhar seguro que não me
perguntaria “porque me olhas?” Senti tamanha satisfação nesse anonimato, um
particular amor da intimidade inconfessável dessa hora. São lembranças que me
transbordam a alma; momentos, filmes dos nossos dias, nem todos tão bons, nem
todos tão ruins, apenas dias. O sono veio reclamar seu direito ao meu
corpo, não iria partir sem antes cheirar teus cabelos como a uma flor e beijar tua boca como um ladrão; um
beijo que tive estrelas mortas como testemunhas. A vida é terra nas botas de
quem caminha. Agora, pensando nisso tudo, nem sei se de verdade acordei naquela
noite ou se fui uma vítima da magia dos meus sonhos. Ainda confuso me resta à
sensação de que numa madrugada, de uma noite de verão, roubei um beijo da tua
boca e este eu nunca vou devolver...
.
07-12-2010
Eu
escrevi esse texto há muitos anos, tantos que nem sei. É como um confessionário
do que fiz, o roubo de um beijo sem presenças, tendo apenas as sombras das
paredes como testemunhas. Ela mesma nem sabe dessa história... Às vezes eu
acordo no meio da noite, bebo água, fecho a janela se está frio ou escancaro se
me abafo com os humores do ar. Numa noite antiga, que os dias colocaram lá
atrás na fila da continuidade, acordei, olhei sonolento pra ela, olhei lá pra
fora para um céu borrado de estrelas que só aparecem no verão, cheirei seus
cabelos, beijei sua boca e voltei a dormir; coisas de marido
que as esposas não sabem que passam. Vocês mulheres, tão ávidas em querer saber
tudo, controlar tudo, quando dormem são apenas encantos embrulhadas em sonhos,
tão lindas e frágeis, cativas de olhares furtivos do homem que respira o seu
ar... O tempo passou, algumas estrelas se apagaram, o amor se desmaterializou,
a cama e a janela não existem mais, o que sobrou, na rede que puxo dessa vida,
são dois filhos lindos, lembranças dos dias que sorrimos e dos que nem sorrimos
tanto assim... A vida é como um caminhar nas margens do rio, vamos recolhendo
pedrinhas pelo caminho, a maioria não lembramos onde guardamos, mas umas aqui,
outras ali, ficam mais vivas na lembrança, ainda que sirvam apenas como pesos
sobre papéis onde escrevemos os nossos dias. .
Boa noite amigo. Agora o relógio do meu computador marca 23:37min. Depois de um longo dia de trabalho achei que iria chegar em casa, afrouxar o coração, fumar meu cachimbo, tomar aquela vodca polaca com gelo grudado no gargalo, ouvir umas baladas dos anos 70, talvez falar das coisas que tenho saudade, talvez chorar a saudade dessas coisas, largar meu corpo sobre a cama, relaxado, tendo poupado R$ 200,00 de consulta com um analista próximo de casa... Porra nenhuma!!!O universo me pertence depois que os filhos dormem... Meu filho mais novo está em crise... Caralho!!!! Ele não sabe o que é uma pensão alimentícia para falar de crise!!... Perdoe-me o palavreado. Estou cansado!... As pernas vão, a mente grita: vai, vai! O peito se enche de ar. Os braços erguem as mãos que apertam os botões... Mas não há sabor nesse prato frio que se come da mesma forma todos os dias... Tem uma música do Djavan que na letra fala: "Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar... Sabe lá..."Estou sem carinho de mulher, sem sexo, estou só... As "primas" que me perdoem, mas o que me distingue dos animais é o amor..."Quer falar de “crise”???"Perguntei a ele:“Está com problemas na escola, está fazendo terapia para entender seus problemas??? Você acha que é o único que tem problemas??? Você acha que amo todos com quem trabalho? Eu saberia dar uma função melhor aos meus dentes do que sorrir para quem não suporto... Eu saberia fazer algo melhor do que ter que ir todos os dias ao trabalho enquanto o mundo está lá fora me chamando para conhecê-lo... Quando sei que não tenho vida suficiente para conhecer um terço do que gostaria, ainda que saísse agora, correndo... Se paro agora... amanhã a panela estará mais vazia do que suas frustrações... Frustrações!?!?!... Quer falar de frustrações??... Como todos os dias frustrações no café da manhã..."Ele ficou me olhando com a boca aberta... Merda! Não é a melhor opção desabafar com um filho, ainda mais se ele só tiver 18 anos. Respirei fundo, veio um silêncio sobre nós, olhei para meus sapatos que precisam de graxa, e disse a ele:"Vai tomar um banho quente, filho... Vou fazer o jantar!"Ele se virou calado e foi pro banheiro... Fiz macarrão com bife acebolado. Fatiei a cebola em rodelas finas, derreti duas colheres de sopa de manteiga, joguei a cebola, inclinei a frigideira e fui mexendo, uma pitada de orégano, três gotas de alho líquido, uma raladinha de nós moscada... estava irritado comigo mesmo por ter falado mais como um cara do que como pai. Quem sou afinal? Pai? Cara? Homem? Sou a mesma pessoa que fui a minha vida inteira, mas aprendi a conviver com meus arreios; com minhas limitações e a conviver com aqueles sonhos que nunca terão as cores da realidade... Nos sonhos as cores são borradas!!! Jantamos em silêncio um de frente para o outro e ele comeu tudo, depois repetiu de novo... Minha comida devia estar boa! A coisa é assim: ou você não tem filhos e passa a sua vida pensando como seria tê-los ou você tem filhos e passa a sua vida pensando o que faria se não os tivesse... No final do nosso jantar disse a ele: "Você só tem essa semana para terminar a escola, faz as aulas de recuperação dessas matérias e depois é férias... As coisas nem sempre são tão boas que não se possa chorar ou tão tristes que não se possa sorrir. Os dias vem e vão, mas procure não perder o foco do que é importante e não deixe de esticar o pescoço para descobrir coisas novas lá na frente..."As vezes acho que ele me escuta falando grego, e nem sempre estou com "saco" para me traduzir...
Não tenho lido jornais, mas lembro que antigamente havia uma seção de Desaparecidos, Sumidos, Abduzidos... Sei lá! Será mesmo que todos foram levados por alienígenas? Será mesmo que todos foram raptados para que seus órgãos fossem retirados para o mercado negro internacional? Será mesmo que todos morreram e foram enterrados como indigentes??? Será mesmo que o extraordinário os absorveu...??? Será mesmo??? Ou seus pés cansados levaram seus corpos cansados para o nordeste começar vida nova a beira de um mar azul da cor do céu??? Para ter suas orelhas aquecidas por um par de seios de uma linda cabocla, de pouca cultura, fascinada pelo seu palavreado cortes e educado??? Onde habita a coragem? Nos que se amochilam de esperança e vão ou nos que se amordaçam e ficam nas torres de arma em punho enfrentando os inimigos até a secura de suas peles??? Acabei naquela noite fumando mecanicamente meu cachimbo, tomei minha vodca pura, não ouvi as baladas dos anos 70, não chorei de saudade e vou para cama preocupado de acordar amanhã cedo, pois tenho uma pilha de sorrisos que não quero dar para distrubuir por ai... e minhas mãos fedem a cebola... Hein? O que vocêdisse? Quem? O Felipe? Está dormindo de barriga cheia na sala... Estava assistindo um filme... Vou deixá-lo ali mesmo e jogar um cobertor por cima...
Até a próxima... Se eu não for “abduzido” antes...